Psilosamples – SP Trips

Produtor mineiro traz um relato psicodélico, profundo e complexo sobre a cidade de São Paulo

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Ano: 2017
Selo: Beatwise Records
# Faixas: 19
Estilos: Experimental, Hip Hop, Sample Based
Nota: 4.5
Produção: Zé Rolê

O ambiente urbano se mostra uma fonte de inspiração inesgotável para muitos artistas. Das imensas megalópoles como Nova York (explorada a exaustão em hits de LCD Soundsystem e The Strokes) até às belas paisagens do Rio de Janeiro (musa indireta de inúmeros compositores da Bossa Nova, como Tom Jobim e João Gilberto), as cidades proporcionam um elemento fascinante a ser explorado em discos: o mistério. Seus entraves e labirintos parecem aguçar nos compositores uma vontade insaciável de desvendar estes mistérios e a jornada, por sua vez, é expressa em forma de discos complexos e fascinantes.

Investigador veterano de sonoridades, o DJ e produtor mineiro Psilosamples parece ter caído na sedução das grandes metrópoles, dedicando seu último registro à descoberta (e redescoberta) da capital paulista. Porém, o que parecia ser no início um compilado de batidas inspiradas nos elementos de São Paulo se revelou um estudo minucioso e transtemporal que nos ofereceu um ponto de vista único sobre este lugar.

SP Trips é uma espécie de intepretação de São Paulo, não apenas do ponto de vista físico, como também simbólico, espiritual e anacrônico. A partir da construção de batidas, Psilosamples procura evidenciar o sentimento de estar inteirado em tamanha catarse e caos urbano. Assim, ouvir suas composições é mais do que um reconhecimento de onomatopeias de cidade. Ao mesmo tempo, as escolhas dos samples inseridos nas músicas também buscam explorar as diversas faces que a capital paulista já teve ao longo das décadas, desde um Jazz sutil dos anos 1940/50 até os sintetizadores efervescentes de 80, entre lojas Mesbla e Mappin. Para que tudo isso aconteça simultaneamente, é preciso um talento que Psilosamples demonstra com facilidade que tem, evitando que suas batidas virem um amontoado de elementos e tendo certeza de que eles se complementam entre si (não necessariamente se harmonizando, já que o caos é uma marca própria de São Paulo).

Com auxílio de uma narração, o disco inicia com Fuga de SP, nos imergindo aos poucos na cidade como se estivéssemos chegando a ela por uma estrada. Pati Farias nos introduz ao trabalho de sonoplastia de Psilosamples, mesclando um piano sofisticado com as batidas quebradas (e um ocasional interlúdio de Boris Casoy). Sagrado e Profano é quase um intertexto com a pluralidade cultural, ou seja, em São Paulo há tantas culturas coexistindo que os samples de idiomas estrangeiros e uma sonoridade cool japonesa cabem perfeitamente nesta mistura.

Zé Cids e sua mensagem positiva e de renovação é quase um conto irônico construído em cima de batidas do começo do Hip Hop paulistano. Já Chapéu Mexicano cria uma hipnose súbita por meio da repetição de sintetizadores e variações em seus tons, frequências e volumes (uma metáfora para a rotina exaustiva dos paulistas). Apodrecimento Maravilhoso encerra esta investigação com uma voz dizendo que, no futuro séc. 25, nada teria sobrado – como se esta a jornada que Psilosamples nos guiou tivesse sido tão intensa que pouco teria sobrado de nós mesmos.

SP Trips nos captura em suas batidas e ambientações sintéticas. Nos deixamos guiar pelo ouvido aguçado do produtor e não sabemos onde vamos parar. E assim, mais uma vez, somos surpreendidos com um disco bem feito e inimaginável. Moro em São Paulo há 27 anos e nunca tinha ouvido sequer falar da cidade que Psilosamples descobriu neste jornada sonora.

(SP Trips em uma faixa: Sagrado e Profano)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.