Resenhas

Public Enemy – Man Plans, God Laughs

Novo álbum é afiado nos temas e frouxo no som

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Ano: 2015
Selo: Cobraside
# Faixas: 11
Estilos: Rap, Eletrônica, Hip Hop
Duração: 27:50
Nota: 3.0
Produção: Gary G-Wiz Rinaldo

Public Enemy, pra quem não sabe, é uma senhora instituição musical americana. Na ativa desde os anos 1980, esse combo de rappers, produtores, agitadores e MCs foi responsável por alguns clássicos do estilo, especialmente na virada da década e influenciou muita gente que não estava envolvida diretamente nas rimas e batidas. Discos como Yo! Bum Rush the Show (1987), It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back (1988) e Fear Of A Black Planet (1990) são clássicos. Foi quando o Rap se tornou uma espécie de porta-voz da vida na cidade grande americana, inchada, injusta, com negros, latinos e demais minorias devidamente subjugadas, subempregadas, pouco ouvidas, sempre distantes dos mecanismos reais de transformação. De certa forma, Public Enemy continua bastante atual, certo?

Não espanta que Chuck D, o mentor intelectual da coisa, esteja ativo e relevante aos 55 anos. Aparentemente, o Rap é um estilo ainda mais restrito que o Rock em termos de relevância artística depois de certo tempo de atividade, mas D segue inabalável, afiado e produtivo, lançando discos legais com certa frequência, como Most Of My Heroes Still Don’t Appear On No Stamp, de 2012 ou How You Sell Soul To A Souless People Who Sold Their Soul, de 2007. O problema maior com este novíssimo Man Plans, God Laughs é o abismo entre o engajamento habitual das letras e o raso absoluto da sonoridade, possivelmente por conta da presença do produtor G-Wiz Rinaldo no comando tático do estúdio, chefiando pela primeira vez um álbum completo de Public Enemy.

G-Wiz opta por deixar as batidas – cruciais no Rap – em segundo plano, soterrando-as num areal de efeitos digitais deixando-as clichezentas e modernosas no sentido vazio do termo. A opção da banda pela curtíssima duração das faixas, com apenas duas ultrapassando os três minutos, reforça um clima informal/involuntário, que joga contra a atualidade dos assuntos, especialmente o vazio da cultura ao redor do planeta, a mídia assumindo o controle das mentes, o racismo institucionalizado, o terrorismo de estado e as formas mais recentes e opressoras do capitalismo. Exemplos de boas faixas, apesar do problema com a produção, estão em Give Peace A Damn, Those Who Know Know Who, Me To We e No Sympathy From The Devil mas há um constrangimento com a utilização de Honky Tonk Women, de Rolling Stones, na fraquíssima Honky Talk Rules*.

Se houvesse a presença de integrantes do passado, como Terminator X e Flavor Flav (que só aparece numa canção), o álbum certamente seria mais interessante e equilibrado. Mesmo assim, é interessante ver o quanto Public Enemy atravessou três décadas de atividade sabendo dosar exposição e discrição. A banda há muito atua nos subterrâneos, aparecendo aqui e ali com discos e shows, como o que fez em São Paulo há poucos anos, tocando ao vivo e desfilando hits como Fight The Power, que já tem quase 30 anos e permanece atual. O novo álbum não traz qualquer faixa minimamente credenciada para passar no teste do tempo, mas elas guardam características de instantâneos ou posts no Twitter, certeiras, imediatas, mas com validade curta. Talvez seja a intenção de Chuck D. Talvez não.

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ARTISTA: Public Enemy
MARCADORES: Eletrônico, Hip Hop, Rap

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.