Resenhas

Purity Ring – WOMB

Terceiro disco da dupla canadense mescla referências distintas e, ao mesmo tempo, reafirma e explora particularidades

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Ano: 2020
Selo: 4AD
# Faixas: 12
Estilos: Synthpop, Powerpop, Eletrônica
Duração: 35'
Produção: Corin Roddick e Megan James

Cada vez mais, o Pop se livra do invólucro criado nos anos 1990 e 2000 de hiper reprodução e constantes autoplágios. Aquela ideia do Pop como uma música “não séria” perde terreno para produções com propostas autênticas e processos mais elaborados. Fazer música Pop, agora, muitas vezes pode ser sinônimo de criatividade aflorada, mescla de referências e originalidade. E a dupla canadense Purity Ring já é dona de uma relação sólida com a música Pop, desde a lapidada e brilhante estreia em 2012, com o disco Shrines.

A partir de então, o grupo trilhou uma jornada bastante diversa, com o lançamento de um novo disco, DJ sets no Boiler Room e até mesmo a coautoria de uma composição para Katy Perry, em 2017. Em meio a demandas e rotinas agitadas, a dupla sentiu a necessidade de dar uma pausa antes de prosseguir com o próximo disco. A pausa parece ter sido fundamental neste processo, pois o que nos é apresentado aqui vem justamente da urgência em se distanciar de tendências e certas obviedades da música Pop mundial na atualidade.

WOMB é um registro que traz as marcas características de Purity Ring, apresentando uma mistura muito delicada entre luz e trevas. Às vezes somos confortados por melodias leves e suaves, adocicadas pelo timbre de voz gentil da vocalista Megan James. E, em outros momentos, a mesma voz é encarregada de nos guiar por ambientes soturnos e claustrofóbicos, abusando de timbres tortos e algo fantasmagóricos. Essa é uma dinâmica muito particular da dupla e, como comentado em entrevista, a pausa teve como propósito buscar a autenticidade de sua música. Após trabalhar em diversos projetos, o grupo procurou aquilo que é mais singular de sua sonoridade e explorou estes aspectos. É por meio dessa exploração que WOMB cria vida.

A temática do disco envolve, nas palavras da dupla, uma busca pelo conforto, por um lugar para descansar em um mundo que está totalmente fora de nosso controle. Assim, ele adquire uma característica de refúgio, mesmo que abrigue, também, sentimentos inóspitos. Talvez esta seja a forma como o grupo expressa o sentimento de impotência perante a complexidade do mundo. É assustador e, de alguma forma, contemplativo. Tranquilo, porém imprevisível. Com isso, cada faixa explora aspectos específicos e oferece algo particular ao ouvinte. O produtor Corin Roddick comentou que houve o desejo de sair de sua zona de conforto, e escapar de sons familiares nos quais se apoiava para construir suas músicas.

Os reverbs invertidos e envolventes de “rubyinsides” abrem o disco, nos bombardeando com vozes de diversos cantos – motivo pelo qual WOMB pode ser melhor apreciado com fones de ouvido. O single “pink lightning” ganha destaque pela forma como foi divulgado: por meio de um jogo de labirinto psicodélico em que o prêmio era justamente ouvir a composição. “femia” é mais branda em seu andamento, misturando suingue e timbre etéreos, alguma coisa entre Tycho e a carreira solo de Mel C (incrível como a dupla une referências tão distintas). “silkpun” traz um momento mais acelerado, com sintetizadores pulsantes evocando uma aura meio Retrowave. Por fim, “stardew” traz aquela sensação de Pop lustroso e envernizado nos timbres nostálgicos dos anos 80.

WOMB é um disco que nos convida a encarar a mudança constante, proporcionando diferentes momentos para seus ouvintes. Apesar de bastante dançante, este movimento serve quase como uma meditação em prol da singularidade em tempos tão compartilháveis. É um disco cujo maior trunfo é a exploração sonora autêntica e assertiva.

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ARTISTA: Purity Ring

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.