Pusha T – Daytona

Disco repleto de polêmicas é a marca da parceria do rapper com Kanye West

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Ano: 2018
Selo: G.O.O.D Music
# Faixas: 7
Estilos: Hip Hop
Duração: 21:00
Nota: 4.0
Produção: Kanye West

A relação entre Kanye West e Pusha T é de longa data – o segundo, sempre presente em participações nos discos do rapper de Chicago, conquistou na última década seus maiores sucessos a partir dessa parceria. Runaway, faixa presente no clássico My Dark Twisted Fantasy (2010), e Mercy, no compilado do selo G.O.O.D Music (do qual Pusha é presidente e Kanye, CEO), pavimentaram a sua carreira solo e despontaram, muitas vezes, como faixas mais lembradas que alguns bons discos como My Name is My Name (2013) e outros ótimos, como King Push (2015).

Pusha T não começou sua carreira nessa década, no entanto. Sua história nasce com o duo Clipse, no qual dividia o papel de MC com seu irmão Malice, parcerias com Neptunes, entre outros, alguns discos clássicos como Hell Hath No Fury e Lord Willin’ e narrativas ao redor do tráfico de cocaína e crack foram símbolos que lançaram o rapper, com agora 41 anos, ao mundo. Se o universo da música e das drogas havia lhe provido fama e dinheiro, um trabalho solo que o colocasse de volta ao jogo se mostrava necessária para apontar que, sim, Pusha T está entre os melhores de sua geração.

Daytona parece surgir para tanto o colocar nessa posição como também enfatizar novamente a importância de sua parceria com Kanye West. O produtor e idealizador, o fez cuidadosamente no estado norte americano do Wyoming – local que gerou posteriormente ye, último disco de West, mas que também promete ser o celeiro de materiais de Kid Cudi e Nas, entre outros.

É difícil analisar esta obra sem entender quão simbiótica é esta relação: Temos aqui algumas das batidas mais criativas, pesadas, profundas e obscuras de Kanye West – base que encorpa as letras e narrativas afiadíssimas de Pusha T. O disco disfarçado de EP pela sua curta duração (21 minutos), mostra que tal denominação pouco importa quando se busca criar coesão com a consciência de perímetro – sete faixas, diretas e interligadas que ganham poder quando ouvidas em sua sequência.

Por isso que nomear Santeria como a melhor faixa, seja pela sua batida cortante na guitarra ou por seu refrão arrepiante em espanhol, talvez não seja condizente com o impacto de Daytona como um todo. O narcisismo de If You Know You Know com Kanye em uma batida de seus tempos dourados e uma letra que realça o passado traficante e perigoso de Pusha, a contínua periculosidade de The Games We Play, a balada cheia de alma de Hard Piano – com um gancho fantástico de Tony Willians e um Rick Ross em modo automático – e os samples lindos de Soul em Come Back Baby – colocando a visão do usuário de drogas frente a do traficante – fluem como uma balada contínua. A cada nova música, uma nova pedrada compartilhada por Pusha e Kanye que tornam o momento em que Santeria surge íncrivel.

No entanto, se as cinco primeiras músicas parecem capítulos da vida de Pusha criados sob diferentes gêneros literários, os dois derradeiros o colocam na linha de frente para disparar tiros à indústria do Hip Hop. What Would Meek Do? tem versos inspirados de um Kanye West versão 2018 e coloca ambos respondendo ao que os demais dizem: “niggas talkin’ shit, Push how you respond?”, em sua abertura, dá o tom o seu tom.

Infrared é certeira na direção: Drake. Apesar de citar de forma cruel Lil Wayne e seu contrato quase que prisional com o selo Cash Money, de Birdman, a vontade de Pusha aqui é continuar o seu longo histórico de desavenças com o rapper canadense – entre os diversos versos direcionados, o mote é sempre o mesmo: Pusha escreve suas letras enquanto Drake enfrenta constantemente acusações de “escritores fantasmas” em suas composições. A poderosa faixa com uma batida mínima foi o fogo que o rapper precisava para ganhar os holofotes com Daytona.

O disco, apesar de ser repleto de polêmicas, seja pelas posteriores faixas lançadas no embate entre Drake e Pusha T ou pela capa escolhida (uma foto do banheiro em que Whitney Houston foi encontrada morta por overdose), consegue se sustentar por sua qualidade e mostra que, mesmo querendo jogar merda no ventilador, o rapper fez valer o seu longo histórico e sua parceria com West para finalmente ter o seu disco solo icônico. Só o tempo dirá se Daytona é o clássico instantâneo que dizem por aí – o certo é que para carreira de Pusha será, definitivamente, a porta de entrada para novos fãs.

(Daytona em uma música: Santeria)

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BOM PARA QUEM OUVE: J Cole, Rick Ross, Kanye West
ARTISTA: Pusha T
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.