Resenhas

Pusha T – It’s Almost Dry

Quatro anos depois do clássico “Daytona”, o rapper retorna com produção de Pharrell e Kanye, em repertório de altos e baixos e momentos de brilhantismo único

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Ano: 2022
Selo: G.O.O.D Music/Def Jam Records
# Faixas: 12
Estilos: Rap
Duração: 35'
Produção: Kanye West, Pharrell Williams

Daytona (2018), disco de Pusha T produzido por Kanye West, coroou a carreira solo do artista em um trabalho com aura de arte contemporânea, beats cuidadosamente curados e discussões provocadas a começar já pela arte de capa. Desde então, qualquer lançamento de King Push é recebido pelo público como clássico instantâneo já no momento do anúncio — mas nem sempre foi assim. Com o Clipse, duo formado com seu irmão No Malice, Pusha T tinha uma fórmula mágica viciante como cocaína – seu gancho temático principal. Com produção majoritária do The Neptunes (Chad Hugo e Pharrell Williams) e melodias grudentas aliadas a baterias frenéticas, ele fez Lord Willin’ (2002) e Hell Hath No Fury (2006), dois discos que o tempo deu conta de registrar como clássicos. Depois da separação do duo com o irmão, ele lutou bastante para refinar sua arte novamente, num período que foi marcado por canções oscilando entre o brilhantismo e o desdouro.

Há mais de 20 anos rimando coke rap, Pusha T não tem o menor interesse em abandonar o tema. O que não é nenhum problema, uma vez que ele continua a aparar as arestas do assunto, sempre encontrando maneiras cada vez mais lúdicas, interessantes e inteligentes de falar sobre o tráfico de cocaína e seu luxo de Tony Montana no auge. Sendo assim, chega a ser inescapável analisar o mais novo trabalho de King Push senão pelos dois elementos tão notáveis quanto à voz rígida e límpida do rapper: seus produtores, Kanye West e Pharrell Williams.

Dividindo seis faixas cada um, Ye e Skateboard P criaram uma paleta diversa de sons, mas que, em contrapartida, prejudicam a coesão do disco. A abordagem de Pharrell lida com melodias, cadências e interpretação, enquanto Kanye só quer barras, ou seja, o Pusha T das mixtapes do Re-up Gang. Push entrega seus raps a Kanye que, a partir daí, imprime sua identidade marcada e característica

Todos os clichês de Kanye estão presentes no disco. “Dreamin Of The Past”, é sampleada do cover de Donny Hathaway da música “Jealous Guy”, de John Lennon, para que Push relembre momentos luxuosos de sua vida que versões anteriores de si mesmo nunca pensou experimentar. Um dos raros acertos de Ye no disco, a faixa funciona até o momento da participação do produtor, que chega com versos pouco inspirados, mencionando seu recente divórcio com Kim Kardashian e como “a família está em perigo quando o pai não está em casa”. “I Pray for You” é imbuída pelo gospel recente que tem dominado os trabalhos de Ye, mas soa mais como um descarte de DONDA (2021) do que como uma música de Pusha T. “Rock and Roll”, construída ao redor de um sample de “1+1” de Beyoncé, com pitch alterado até a cantora parecer Alvin e os Esquilos, é outro artifício clássico de Kanye presente aqui.

Ao ouvir “Hear Me Clearly”, música que está tanto no disco de Push quanto em I KNOW NIGO! (2022) lançado semanas antes, Skateboard P. disse a Pusha que “a música está legal, mas eu não quero que você seja um rapper de mixtape para sempre”. No seu melhor, a metade produzida por Pharrell honra o legado experimental e quase “rap industrial” de clássicos do Clipse como “Grindin” e “Mr. Me Too”; conduzindo Pusha T por beats que extraem toda sua vilania e magnetismo. É o caso de “Brambleton”, que abre o disco com os dois pés na porta e sua sequência “Let The Smokers Shine The Coups”, em que dois curtos, mas eficientes, versos de Pusha T são como os Sai de Rafael (“Tartarugas Ninja”), terminando de maneira magistral com o rapper se definindo como o “Dr. Seuss da cocaína”. No entanto, nem tudo é perfeito nas mãos de Pharrell Williams. “Scrape It Off” também soa como uma música sobra de outro projeto (I KNOW NIGO!, nesse caso), com participação de Don Toliver e Lil Uzi Vert, que não respondem, muito menos suplementam a presença de Pusha T. Ainda assim, é das mãos de Pharrell Williams que sai “Neck and Wrist”. Com participação de JAY-Z, a música é não somente a masterpiece do álbum, como também uma das melhores músicas de todo o catálogo de Pusha T. Além da evidência de que o rapper encontra no seu conterrâneo das praias da Virgínia a sua melhor forma.

Quatro anos após o excelente Daytona, It’s Almost Dry é um disco que faz valer a pena a espera, mesmo com altos e baixos e uma considerável perda de fôlego na segunda metade do repertório. Experiente, habilidoso e refinando cada dia mais os seus temas, Pusha T sempre vai entregar bons raps, mesmo se rimasse em uma batida feita numa caixinha de fósforo – porque é isso que bons rappers de mixtape fazem. No entanto, a excelência de Pusha T, assim como um diamante, aparece mesmo é na pressão e na indução para ser mais do que um rapper de mixtape.

(It’s Almost Dry em uma faixa: “Neck & Wrist”)

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ARTISTA: Pusha T