Resenhas

Queens of The Stone Age – …Like Clockwork

Depois de seis anos sem produzir com sua banda, Josh Homme e seu turma voltam com um disco que pode ser considerado sua obra-prima

7,530 total views, 2 views today

Ano: 2013
Selo: Matador
# Faixas: 10
Estilos: Stoner Rock, Rock Alternativo, Desert Rock
Duração: 45:59
Nota: 5.0
Produção: Josh Homme
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2F...like-clockwork%2F

Seis anos separam Era Vulgaris e …Like Clockwork. Um período em que o frontman Josh Homme passou por inúmeras experiências que invariavelmente moldaram a nova produção do Queens Of The Stone Age. Neste tempo Homme se viu uma vez entre a vida e a morte (e de fato ele foi considerado morto por alguns segundos, durante uma cirurgia em 2011), experimentou a paternidade, produziu um álbum do Arctic Monkeys, tocou por um tempo no Eagles of Death Metal (banda de seu amigo Jesse Hughes), formou o super-grupo Them Crooked Vultures (ao lado de Dave Grohl e John Paul Jones) e despediu de um de seus melhores amigos da banda (o baterista Joey Castillo). Tudo isso moldou a forma do músico de encarar a vida e as temáticas abordadas em suas canções – é claro que a forma como ele as faz também foi ambientada a essa nova realidade.

Ainda que tão intenso quanto qualquer um dos outros dos cinco discos do grupo, …Like Clockwork parece tirar um pouco do peso das guitarras e da robustez sonora vista até então e se focar nas letras para criar esse mesmo efeito. Não que Homme tenha desaprendido a soar como sempre soou: suas guitarras continuam incrivelmente distorcidas e intensas, suas melodias pegajosas e inebriantes, suas letras permanecem soturnas; mas também há momentos mais sóbrios, onde o clima (a vibe soturna) diz muito mais do que a usual porrada sonora do QOSTA. Sem dúvida alguma esse é um disco arriscado e seu vocalista deixou isso bem claro desde o início – seja pelo time de convidados (criando uma enorme expectativa a cada anuncio de um novo nome) ou pelo fato de se expor tanto (abordando temas como a efemeridade da vida, relacionamentos, sentimentos, fé e morte).

“I want God to come/ And take me home/ Because I’m all alone in this crowd/ Who are you to me?/ Who we’re supposed to be/ Not exactly sure”. Esses foram os primeiros versos escritos por Homme após sua recuperação a tal cirurgia e culmina sendo o ponto central de toda a obra. Sendo este inicio guiado pelo piano, The Vampyre of Time and Memory mostra que nem tudo está como costumava ser e que, principalmente, a banda mergulhou de fato nessa nova sonoridade cheia de confusão, pessoalidade, vulnerabilidade e uma espécie de som confessional. Vale ressaltar que a vibe Stoner Rock (embebida na sensibilidade Pop do grupo) continua tão potente quanto sempre foi – e no sentido de tornar “Pop”, talvez esse seja o álbum mais acessível e direto já produzido pela banda (mais até que a obra prima Songs for the Deaf)

Curiosamente, muitos personagens de Songs regressam a esse álbum: Dave Grohl assume novamente as baquetas, Nick Oliveri canta em algumas das faixas e Mark Lanegan novamente ajuda Josh em algumas das letras. Ainda continuando a falar desta constelação de convidados, Trent Reznor e Alex Turner fazem boas aparições, mas não superando a de Sir Elton John tocando piano e dividindo os vocais com Josh em Fairweather Friends – uma das melhores faixas de todo o álbum e que mais uma vez mostram essa nova direção tomada pela banda. Versos como “Is there anyone out there, or am I walking alone?/ I turned around and found that you’d gone before the first rain could fall” só puderam ganhar tanta força aos falsetes de Homme com o piano emocionante de John.

Iniciando o álbum de maneira tensa, porém equilibrando muito bem a ferocidade e o barulho de seus riffs, Keep Your Eyes Peeled apresenta uma boa dinâmica entre o refinamento e a agressividade, ao mesmo tempo que também deixa bem claro a grande melhora na produção e instrumentação – até um violoncelo dá as caras ao fim desta faixa. Em seguida I Sat by the Ocean brinca com riffs do Hard Rock no refrão e uma condução quase blueseira durante sua construção harmônica – além, é claro, da ótima lírica e dos falsetes de Josh e da nova aparição do piano. Ainda que distantes, as duas faixas criam grande coesão (o que será visto em todo o álbum) por trazer ao álbum elementos de certa forma “já conhecidos” pelo ouvinte.

A já citada The Vampyre of Time and Memory apresenta a faceta mais calma (e depressiva) do álbum. Guiada pelo leve dedilhar de piano, a balada cresce com a presença da parcimoniosa bateria de Grohl, alguns sintetizadores disformes, o suave e dramático cântico de Homme e sua ousada guitarra costurando todas as pontas – além da ótima sessão de cordas ao fim da faixa, acompanhando o solo de guitarra. If I Had a Tail expõe mais uma vez o lado mais infeccioso do som QOTSA, mostrando os pegajosos riffs vindos do Stoner Rock e uma batida pulsante que condensa grande parte da faceta mais Pop de …Like Clockwork. Mark Lanegam aqui é uma peça fundamental e contribui não só no backing vocal, mas também em parte da densa lírica cheia de alegorias.

Continuando nessa mesma toada direta e roqueira, My God Is The Sun atinge o ouvinte com guitarras furiosas e melodias muito bem construídas ao redor de um refrão pegajoso. Mais uma vez o baterista toma as rédeas do ritmo e se apresenta de forma explosiva durante toda sua duração – agora sim remetendo aos momentos mais abrasivos e cativantes de Songs for the Deaf. Mantendo essa densa coesão, ele se mistura com Kalopsia como se fosse uma só faixa dividida em partes completamente distintas, porém ligadas subjetivamente por uma ponte. Essa é mais uma balada ao piano e voz e mais uma vez mostra essa sombriedade emocionante que carrega o álbum – não por acaso a ótima (e já citada) Fairweather Friends vem em seguida mantendo esse mesmo clima.

Smooth Sailing é talvez a faixa que mais se distancie de tudo o que foi apresentado até então. Carregada com um quê de Eagles of Death Metal, a faixa se envereda pelo Desert Rock, mas mantendo um groove inconfundível. Incrivelmente divertida, ela pode remeter a canções de álbuns como Rated R ou Songs for The Deaf e é como se Homme esquecesse um pouco de seus problemas abrisse uma cerveja e celebrasse tudo o que alcançou até agora. I Appear Missing volta aos eixos sonoros e mais obscuros mostrando um músico vulnerável e cheio de receios em sua lírica. Versos como “Shock me awake, tear me apart/ Pinned like a note in a hospital gown/ Deeper I sleep, further down/ A rabbit hole never to be found” e “I go missing/ No longer exist/One day I hope/ I’m someone you’d miss” expõem essa fraquesa e mostra Homme como um mero mortal, porém também como um herói que perseverou em tempos sombrios e se manteve verdadeiro durante todo este processo.

Esse é um dos discos mais hypados do ano – e muito disso se deve a grande campanha publicitária envolvendo “os falsos documentários”, os clipes e cartas que o precederam -, mas também um dos mais ambiciosos (seja sônica ou liricamente) de toda a carreira do grupo. Um exorcismo de todos os demônios que atormentaram Homme durante todos os anos deste hiato não pretendido. E quer prova maior disso do que a faixa de encerramento, Like Clockwork? Essa é uma das baladas mais sofridas e belas já feitas pela banda e é majestosamente embalada pelo piano, dedilhado de forma incrivelmente sofrida. O verso “Because not everything that goes around comes back around you know” comprime muito dessa lírica (às vezes passiva) que a faixa passa e mostra também um pouco um dos sentimentos que conduzem grande parte do disco.

“One thing that is clear it’s all down hill from here”. É assim que …Like Clockwork termina, talvez com a aceitação de Josh Homme e de seu Queens of The Stone Age de que esta é sim sua obra-prima.

7,531 total views, 3 views today

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts