Resenhas

R.A.P. Ferreira/scallops hotel – Bob’s Son

Versátil e ousado, Rory Ferreira une duas diferentes personas para homenagear o poeta Bob Kaufman

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Ano: 2021
Selo: Ruby Yatch
# Faixas: 12
Estilos: Rap, Sample Based, Lo-fi
Duração: 35'
Produção: scallops hotel

Rory Allen Philip Ferreira tem vários nomes. Talvez sua alcunha mais conhecida seja Milo, nome que oficialmente abandonou em 2018 com seu disco budding ornithologists are weary of tired analogies. Entretanto, ao longo de sua prolífica discografia, Rory assume diferentes personas, como Black Orpheus, Nostrum Grocers, scallops hotel e, recentemente, em uma tentativa de unificar tudo isso e ainda sintetizar seu nome de batismo, adotou R.A.P. Ferreira. Além disso, não é simplesmente um homem de muitos nomes, mas um artista de muitas vozes. Escutar a obra de Rory é mergulhar por referências extremamente distintas: em um momento ele discorre sobre conceitos da filosofia alemã, em outro aprofunda-se na dificuldade de vencer o chefão principal do jogo Diablo ou recorta a experiência de saúde mental em analogias com a esquizofrenia e paranoia. Parece que a pluralidade e urgência dos temas que o rapper/produtor anseia por expurgar de si são tão imensas, que apenas um nome seria insuficiente para dar conta deste dilúvio.

Mas apesar de expandir seu universo singular em diferentes personas, Rory tem um estilo autêntico e único. Ele se apoia muito na construção de batidas a partir de samples de Jazz dos anos 1940/50, mas, ao contrário de outros produtores com semelhante escolha estética, seus versos e rimas são quebrados a tal ponto, que alguns aproximam seu flow de um formato mais Spoken Word. Rory não conseguiria encaixar seu fluxo entre as barras de uma batida, apesar de fazer isso quase de forma acidental. Portanto, encarar um registro do rapper requer um respiro prévio, quase como um preparo mental para poder absorver o máximo possível de conteúdo durante a reprodução dos registros. A ideia não é rimar rápido, mas rimar com profundidade, como um filósofo moderno – área do conhecimento que Rory sempre procura colocar em evidência nas suas rimas.

Em Bob’s Son as coisas ficam ainda mais interessantes. Dessa vez são dois alter egos de Rory que assinam a produção: a mais nova e abrangente personalidade, R.A.P Ferreira, e o escondido e misterioso beatmaker scallops hotel. É curioso que, para compor este novo registro, Rory tenha escolhido dois nomes diferentes, como se cada um colaborasse à sua maneira, emprestando elementos específicos para prestar uma homenagem apropriada. A homenagem em questão é explicitamente colocada nos créditos do disco: “Esse disco é dedicado ao poeta Bob Kaufman”, considerado o criador do Abomunismo (uma espécie de vertente do Anarquismo). Entre o discurso ácido-filosófico de R.A.P Ferreira e as batidas nostálgicas e quase fantasmagóricas de scallops hotel é que o tom do disco se instaura, como um manifesto próprio de Rory.

Rory coloca como uma das primeiras faixas “the cough bomber’s return”, que une o mundano fato de acordar e sentir o cheiro de muffins à reflexão da essência individual de cada um – a “massa” de cada um. “redguard snipers” discorre sobre o novo e o espanto e, muitas vezes, o ódio que ele causa. “skrenth” traz a fala do escritor Amiri Baraka sobre o poder de transformação e altamente político do Rap e da poesia. De forma soturna e lírica, “rejoice” é psicodélica na escolha dos timbres suaves, mas traz linguagem rápida e constante e é uma das faixas mais representativas da sonoridade de Rory. Por fim, “abomunist manifesto” é mais direta, para que o ouvinte tenha conhecimento do protagonista político para quem o disco foi dedicado.

Para adicionar maior imersão ao projeto, o disco também sonoriza uma instalação virtual disponível online , como uma manifestação imagética do que seria o título completo do disco: “bob’s son: R​.​A​.​P. Ferreira in the garden level cafe of the scallops hotel”. O trabalho é uma exploração por um simples café, onde cada posicionamento no ambiente virtual possui algum nível de interação – desde ler algumas páginas dos manifestos de Bob Kaufman a até mesmo comprar maconha em um site redirecionado.

A riqueza das diversas linguagens que Rory utiliza para construir este universo – seja a escolha do sample, o tom da rima ou a textura do papel de parede do café virtual – contribuem para consolidar ainda mais seu nome entre um dos rappers mais interessantes da atualidade. Bob’s Son é uma fatia rica do pensamento do artista, pensamento este que nos faz rever as relações da contemporaneidade. Não apenas pelo hedonismo das desconstruções, mas pelo espanto que a real complexidade da coisa causa.

(Bob’s Son em uma faixa: “rejoice”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.