Resenhas

Radioworkers – High Pressure Bong Hits

Guiado pelo trio Zopelar, Martinelli e Sallum, projeto é uma viagem que reverbera variadas influências, mas com fartura de Acid House

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Ano: 2020
Selo: Oddiscos
# Faixas: 10
Estilos: Techno, Acid House
Duração: 51'
Produção: Pedro Zopelar, Henrique Martinelli e Benjamim Sallum

Imagine três caras tão aficionados por synths e drum machines, a ponto de agarrarem amizade justamente por conta de o gosto em comum render sessions intermináveis horas a fio. A descrição é simplificada, mas essencial para entender por que é tão harmonioso o som do Radioworkers, formado por Pedro Zopelar, Benjamim Sallum e Henrique Martinelli. A envolvente sintonia do trio é típica das relações movidas pelo amor e pela admiração, cujo reflexo sonoro é a tônica de High Pressure Bong Hits, primeiro disco do projeto – lançado no ODDiscos e distribuído internacionalmente pela alemã Muting The Noise, em Berlim. O selo paulistano busca dar espaço às uniões musicais originárias na festa ODD, é o caso do Vermelho wonder, duo formado após uma performance de Márcio Vermelho e Ivana wonder. O mesmo aconteceu com o Radioworkers.

No começo da última década, quando os coletivos independentes ganharam força ocupando, com música eletrônica, espaços abandonados em São Paulo, uma leva de DJs e produtores abriu caminho e inspirou frequentadores mais jovens de projetos como a Mamba Negra, Selvagem, Carlos Capslock e ODD, do qual Zopelar é um dos organizadores. O músico de Caratinga, que soltou no começo do ano o disco solo Joy of Missing Out (Apron Records), faz parte da banda Teto Preto e do duo Sphynx, e ainda é parceiro de Lhome Statue (Loïc Koutana). Ele sempre se mostrou aberto a trocar ideia sobre música com quem é interessado em saber mais a respeito de suas técnicas de produção. Henrique Martinelli e Benjamim Sallum (introduzido cedo no rolê por ser filho da promoter Claudia Pinheiro) davam os primeiros passos criando sons após colarem nas festas, e Zopelar deu a maior força para os dois. Deste modo, foi selada uma amizade movida pela pesquisa musical antes mesmo de se oficializar qualquer parceria artística. Sallum e Zopelar já formam, em paralelo, o duo My Girlfriend, que teve lançamento pela Apron Records, capitaneada por Funkineven – outra amizade nascida na pista da festa em que Martinelli tornou-se residente.

A construção viajante das dez faixas do álbum é alinhada por meio de distorções sujas típicas da Acid House, impulsionada por vibrações #420, em arranjos e batidas extremamente chapantes. O setup justifica as sonoridades oitentistas reverberadas no clássico Roland TR 808, base de Miami Bass, Detroit Techno, Electro e origens do Hip Hop. Já os elementos da Acid ecoam pelo Cyclone TT303 (primo do Roland TB 303) e pelo Roland TR 707. Ainda há o Roland Juno 106 – o sintetizador queridinho da música Pop –, o monofônico MS-20 Korg e o semi-modular 0-coast Make Noise dividindo espaços e camadas. Some a tudo isso pedais de efeito e Ableton Live, com os quais as faixas, gravadas em jams na hora de fazer arranjo e mix, foram editadas, segundo o trio.

O visual cru de Jesse Pimenta traduz em estética o que é proposto nas músicas. “Escolhemos o Jesse pois o estilo de arte dele se caracteriza bastante agressiva e provocativa, depois do trabalho para a label dele, Private Selection, nós já tínhamos certeza que iríamos querer uma arte dele para o álbum”, declarou o trio ao Monkeybuzz.

Quem gosta de som Acid já se entrega na primeira audição. Uma boa pedida para tirar a cabeça do clima pesado das notícias tristes do isolamento e conduzir a mente, por meio da imaginação, para um universo intergalático-retrô-futurista ao fechar os olhos. É hora de brisar com “Naked Flame”, sedutora, de vocais perturbadores hipnotizantes e timbre melancólico, que atinge uma espécie de ápice de derretimento até se dissipar em “The Rhythm, The Rebel”, momento dos modulares firmarem uma base surreal para beats encaixados por sequências altamente dançantes afeitas ao Breakbeat. A fritação Acid segue pesada em “Keep Away From Sources” de bases cada vez mais Lo-Fi e distorções que soam como uma comunicação de rádio extraterrestre em contato com algum experimento raver.

Relax só o nome (e um pouco da introdução), pois “Relaxed Rolex” é uma piração de Electro elevada ao ápice. Pausa para um respiro, literalmente, em “Deep Breath”, quando o mood fica colorido por influências de Dub. O clima de positividade segue na etérea “Rolling Thunder”, melódica e lisérgica, decomposta bruscamente até o drama de “Amb Acid”, cheia de ares industriais e um quê de Post Rock. Provavelmente a mais contemplativa do disco, soa como uma queda sonora vertiginosa de energia, até que a viagem reassume o controle em “Floricultura”, mistura de Acid com vibe gangsta devido a referências sutis às origens do Hip Hop, impressas em grooves deliciosamente estranhos. “808 Theme” é outra surpresa positiva dançante, movida pelos beats clássicos da Roland TR 808. Para encerrar, “Life is Full Of”, espectro tão rico de ritmos que é capaz de desorientar quem está a fim de entender melhor a faixa. É fácil se perder em meio a sons graves que remetem ao Techno em alguns momentos, ao Industrial em outros. A única certeza é a fartura de Acid, conforme avisei lá no começo da jornada.  Have a nice trip!

(High Pressure Bong Hits em uma faixa: “Life Is Full Of”)

 

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