Resenhas

Rina Sawayama – SAWAYAMA

Em seu primeiro disco oficial de estúdio, a cantora e produtora traz caldeirão de referências em prol de narrativa pessoal e de crescimento

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Ano: 2020
Selo: Dirty Hit
# Faixas: 13
Estilos: Pop, Electropop
Duração: 43
Produção: C. Clarity, C. Lyon, Valley Girl, B. Inscore, D. L. Harle, R. Sawayama, J. Gilmore e K. Shearer

A música tem o indiscutível poder de contar histórias que transcendem uma narrativa linear ou padrão. É evocado algo além das palavras, construindo imagens que não são apenas descritas, mas sentidas e vivenciadas. É, por vezes, o recurso mais potente para escrever obras autobiográficas, reconstruindo cenários passados com uma fidelidade subjetiva que permite ao seu autor transmitir aspectos específicos de sua história. Para a cantora e produtora Rina Sawayama, esta característica narrativa da música lhe é particularmente útil.

Com uma obra relativamente curta, Rina assume o cunho pessoal de suas músicas desde de sua mixtape de estreia, Rina, de 2017. Letras confessionais entoadas em melodias extremamente pegajosas e com uma camada brilhante de glitter no acabamento final são elementos que definem, em parte, a sua sonoridade. A outra parte fica por conta de como Rina consegue orquestrar diferentes elementos para pintar os cenários específicos de sua história. Esta última parte ganha uma evidência maior em seu novo trabalho, no qual há o uso de cores mais vibrantes e emoções mais intensas.

Em SAWAYAMA, Rina opta por narrar a sua vida, focando no árduo e complicado processo de passar da adolescência para a suposta vida adulta. Em entrevistas recentes, ela revelou que este é um disco sobre relações familiares e a procura de uma identidade em um meio que opõe duas culturas diferentes. Rina nasceu no Japão, mas se mudou com cinco anos de idade para Londres, onde passou a maior parte de sua vida. Dividindo o quarto com sua mãe em uma criação solo, Rina teve uma adolescência bem caprichada nos estereótipos de rebeldia: fugiu da cidade com 15 anos, costumava ir encontrar bandas das quais era groupie, foi ameaçada de ser enviada para um internato pela mãe, entre outros.

De uma forma ou outra, isso acaba entrando na construção emocional que o disco traz. Coloca-se Rina como uma cantora Pop, mas isto parece ser apenas uma formalidade, uma vez que gêneros de naturezas diferentes compõem suas criações. Há momentos em que o Metal (particularmente o Nu Metal da metade dos anos 2000) entra com tal força que, se essas faixas fossem escutadas separadas do disco, não poderíamos sequer supor que se trata de uma cantora denominada Pop. Assim, aquela raiva e o sentimento de não pertencimento adolescente são ilustrados por guitarras distorcidas e até mesmo samples de composição de Metal. Já “STFU!” se escora na imensa força de versos caprichados em riffs brutais – algo como uma mistura Kittie e Evanescence.

Entretanto, esse não é apenas um disco sobre a revolta adolescente, mas, sim, sobre o processo de crescer. Assim, a complexidade deste evento é traduzida na pluralidade de estilos que ela coloca à mesa. Por exemplo: o Pop ainda tem muita força no disco, sobretudo, bebendo de uma estética “virada do milênio”, cujas referências vão de Britney Spears (da fase Oops…I Did It Again), na faixa “XS”, ao movimento Club House, no single dançante “Comme Des Garçons (Like The Boys)”, que conta com uma versão remix com Pabllo Vittar. Os anos 1980 ganham espaço na narrativa no Synthpop de “Tokyo Love Hotel”, passando por uma espécie de Glam Metal na faixa de abertura “Dynasty”, até chegar a flertes com o Pop japonês em “Paradisin'”.

Enquanto no lançamento passado, Rina, víamos uma cantora e produtora preocupada em definir o cerne de sua persona artística, agora nos deparamos com Rina procurando em sua história e ancestralidade (daí a importância do título) elementos que sustentem a sua escolha de ser. SAWAYAMA é um trabalho que apresenta a característica mais marcante da artista: a versatilidade condizente com sua história. Apesar de extremamente relacionável com o ouvinte, a protagonista do disco ainda é Rina, tornando-a, assim, estrela de sua própria narrativa. Uma narrativa de transformação e ressignificação.

(SAWAYAMA em uma faixa: “XS”)

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ARTISTA: Rina Sawayama

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.