Resenhas

Rincon Sapiência – Galanga Livre

Disco de MC paulistano traz afirmação de valores negros enquanto expressão musical

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Ano: 2017
Selo: Boia Fria Produções
# Faixas: 13
Estilos: Hip Hop
Duração: 46:00
Nota: 4.5
Produção: Rincon Sapiência, Gambia Beats

Dentre tantos versos e punchlines precisos de Rincon Sapiência em Galanga Livre, o refrão da abertura Crime Barbáro parece trazer o sentido que une as referências e sabedorias do disco do rapper da zona Leste paulistana: “mesmo estando em desvantagem/a sensação é de poder”. Ao longo de um trabalho que exalta valores da cultura Africana e seus consequentes desdobramentos musicais em ritmos como Rap, Reggae, Samba, Afrobeat e Rock’n’Roll, o MC usa de sua voz e verso livre para não só afirmar-se enquanto músico para alcançar multidões, mas principalmente como negro em um país de raízes escravocratas.

Isso ecoa desde Intro, faixa que contextualiza o ouvinte no conto fictício de Galanga, escravo que matou seu senhor de engenho e fugiu – analogia à liberdade que Rincon busca através de suas palavras – até o single que o popularizou de forma vertical entre os amantes do Hip Hop, Ponta de Lança. Seus versos são poderosos e sua rima sagaz desfere tapas na cara necessários, nada gratuitos e que, ao invés de apontar dedos, preferem fazer pensar.

Talvez o grande exemplo lírico nesse sentido seja A Coisa Tá Preta, música que expõe o racismo velado no dia a dia do brasileiro. A expressão, que tem sentido negativo em jargões populares, é desconstruída para ressignificar em seu real sentido: “Se eu te falar que a coisa tá preta, a coisa tá boa pode acreditar/seu preconceito vai arrumar treta, sai dessa garoa que é pra não moiar” é o gancho que leva o verso a não sair da cabeça ao final da música e deixar o recado bem explícito: preto é coisa boa.

Se até agora não houve uma abordagem direta no texto aos ritmos e sabores de Galanga Livre, saiba que tais aspectos não são menos importantes e, pelo contrário, se mostram fundamentais para tornar a narrativa de Rincon ainda mais impactante. É difícil ficar parado quando se ouve o disco: Benção, com Willian Magalhães, traz uma batida marcada no pé e na rasteirinha para convidar o próximo à dança, enquanto a balada A Noite é Nossa poderia estar nas rotações de um baile dos anos 1980 – na mesma toada de Boogie Night, de Mano Brown, que colocou Sapiencia para abrir alguns show de sua turnê -, e Moça Namoradeira traz o chamado Brazilian Bass às pistas contemporâneas e uma letra que aborda a mulher como ser independente e nada objetificada.

As faixas que lançaram o MC ao estrelato, como Ponta de Lança, Meu Bloco e Ostentação à Pobreza, continuam se destacando no disco. Entretanto, se todas permanecem certeiras, a menor importância das mesmas ao longo da duração do trabalho só mostra que Sapiência sempre teve mais coisas a mostrar desde Linhas de Soco, de 2014, música que abriu os portões ao rapper. Volta pra Casa é um dos grandes momentos do disco e é facilmente assimilada por qualquer trabalhador ao retratar a rotina de deslocamentos sem conforto, múltiplas rotinas e sonhos dos brasileiros com versos emocionantes.

Se pelo aspecto musical o disco chama atenção por referências diversas e, principalmente, por batidas carregadas de percussão, tambores e berimbaus, realçando as raízes negras brasileiras e afrodescendentes que Sapiência buscou, o trabalho seria vazio se não trouxesse o seu conteúdo lírico. O Rap é o retrato do cotidiano, a poesia que eleva-se através da música para impactar pessoas de diferentes realidades e, nesse sentido, a produção de batidas feita quase que exclusivamente pelo MC – com exceção da deliciosa Amores às Escuras de Gambia Beats – torna o discurso e a música indissociáveis em Galanga Livre, um álbum fundamental dentro do Hip Hop brasileiro em 2017.

Retomando os versos citados no parágrafo inicial, o MC expõe uma visão realista e afirmativa do negro na sociedade brasileira – ainda em desvantagem, mas com poder nas mãos. Enquanto em seus versos “pretos e pretas estiverem se amando”, as coisas estão melhorando, mas ainda assim muito longe de qualquer igualdade e representatividade – “que os pretos liguem a TV e se identifiquem” ele diz em Vida Longa. Se a luta é longa e “infelizmente Bolsonaros não é tipo raro”, Sapiência estabelece seu nome num trabalho autoral repleto de hits necessários em tempos conturbados.

(Galanga Livre em uma música: A Coisa Tá Preta)

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BOM PARA QUEM OUVE: Mano Brown, Black Alien, Emicida
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.