Resenhas

Rio Sem Nome – Canções Nômades

João Carvalho reflete sobre a morte em seu novo álbum

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Ano: 2017
Selo: Geração Perdida
# Faixas: 11
Estilos: Ambient, Experimental
Duração: 49'
Nota: 3.0
Produção: João Carvalho

“Hoje é meu aniversário. Completo 23 anos. Aos quatro, me lembro que pela primeira vez chorei com a percepção da morte. Ela anda de mãos dadas, com o movimento e com a vida. Decidi me dar de presente o nascimento desse disco, em dias de tantos lutos e movimentos tão intensos”. É com esse pequeno texto que o músico mineiro João Carvalho (membro do grupo El Toro Fuerte e colaborador de diversos projetos de artistas da nova geração da música de Minas Gerais) descreve seu novo álbum.

Canções Nômades é um disco que tem como principal impulso criativo a perspectiva da morte e finitude do ser. Um debate que acontece desde Platão, passando por Montaigne e Ernest Becker, (esses dois em especial) que colocam a percepção da morte como fio condutor de nossos feitos durante vida. Seja a partir da Negação da Morte (livro mais famoso de Becker) ou de sua aceitação plena, é ela quem nos conduz até o fim dos nossos dias e o que nos impulsiona a criar.

Essa constatação do fim está presente em grande parte das letras, que se desenvolvem quase sempre a partir de estruturas simples e curtas. A entrega dessas poucas palavras, que parecem surgir da incapacidade de enfrentá-la (a morte) de frente, vem de forma arrastada e pesarosa. Lentos cânticos que mais parecem um elemento instrumental dentro das canções.

Tiradentes, por mais que fuja da estrutura curta das letras, talvez seja a música que melhor resuma o álbum. Com uma instrumentação cheia de elementos (timbres de flautas, um violão palhetado e uma percussão simples) em desordem, a faixa liga de forma desconexa letras e parte instrumental em uma experiência bastante sensorial, uma apreciação que surge quase dissociada de uma apreciação estética formal.

Longe de ser um disco assombrado pela morte, João parece criar a partir dela, sabendo que seus dias estão contados e fazendo deles uma constante criação. Não à toa, o músico lançou a pouco o álbum Am_Par_Sis (com o projeto Sentidor) em que recria a obra de Tom Jobim, e antes desse um disco homômino – tudo em pouco mais de dez meses. Ainda que essa verve criativa gere álbuns bastante espontâneos, os discos sofrem do mesmo problema e assim como os outros, Canções Nômades, chama mais a atenção pela produção inteligente e temas pessoais do que pela interpretação do artista.

(Canções Nômades em uma faixa: Tiradentes)

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ARTISTA: Rio Sem Nome
MARCADORES: Ambient, Experimetal

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts