Resenhas

Rio Sem Nome – Rio Sem Nome

Novo projeto de João Carvalho é uma experiência extremamente epifânica pelo experimentalismo melódico

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Ano: 2016
Selo: Geração Perdida
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Post-Rock, Ambient Music
Duração: 50:00
Nota: 4.5
Produção: João Carvalho

João Carvalho escolheu um caminho sem volta: viver a vida intensamente. Nada de sentimentalismos de cartão de presente ou conclusões de livros de auto-ajuda. Suas experiências são pontuais e decisivas e o reflexo delas são transcritas sob as diversas facetas de seus projetos musicais. Seja no existencialismo jovial pós-moderno das canções de El Toro Fuerte ou nas sinestesias musicais de Sentidor, o talento do jovem mineiro é inquestionável e, a cada episódio de seus 22 anos, um novo microcosmos nasce em sua mente e a necessidade de transpor essa imensidão para música é urgente. Desta vez, a turnê Bons Amigos, Maus Hábitos, com seus amigos da Geração Perdida, foi o estopim para a explosão de criatividade, agora sob o nome de Rio Sem Nome, uma homenagem a uma paisagem desconhecida entre Campina Grande e João Pessoa.

Rio Sem Nome é diferente de outros projetos de João. Enquanto El Toro Fuerte e Sentidor produziram grandes explosões em nossos ouvidos, o novo experimento do compositor é uma série de explosões em nossos corações, de diferentes intensidades mas de impactos significativos. Fazer uma turnê com seus amigos claramente aguçou os seus sentidos e as músicas adquirem uma faceta mais melódica, sem necessariamente abrir mão daquele conhecido caos milimetricamente construído. A depressão também é um marco decisivo para a composição deste trabalho, ainda mais em um momento tão delicado como este, sucessivo a uma crise intensa transcrita em seu registro passado, Memoro Fantomo/Rio Preto. Assim, o somatório de todos estes episódios é o que guia o curso deste Rio Sem Nome: um rio de vivências e que está sujeito à imprevisibilidade da vida, ora suave, ora intenso.

A nascente do rio fica por conta de Rio Sem Nome, uma faixa que começa a preencher os pequenos espaços subjetivos de nossa mente, com vozes conjuntas e recortes de melodias que ao mesmo tempo que causam dissonâncias, se harmonizam. A História Não Nos Redimirá traz um curto poema que se estende por toda epifânica composição, projetando uma grande dúvida além da existência de João. Rojava, por sua vez, faz jus ao nome que tem, uma vez que seus timbres e descompassos se arrastam de forma hostil, mesmo que a doce voz do compositor nos guie a entender o contrário. Recife retoma o lado introspectivo, com uma nuance hipnótica apelando para timbres que lembram um Boards Of Canada mais experimental.

“Epifania” é uma excelente palavra para descrever este disco, especialmente os singles. Muito bem escolhidos, Cosmorama e Liberdade trazem cada qual ápices intensos de emoção. Os episódios aqui retratados mudaram João e o que ele tenta nos mostrar é justamente sua mente se adaptando a estes maravilhosos acontecimentos. Cosmorama vai crescendo até transpassar a estratosfera, com uma emoção ímpar. Já Liberdade é um dos maiores orgasmos espirituais do disco, envolto em profundos acordes de piano até chegar ao momento final com um arranjo de cordas devastador, que transforma qualquer um que o escute. Este é um tema que perdura durante a execução do disco, tanto na interpretação de João quanto em nosso espírito depois de escutar este trabalho.

Quando terminamos de escutar o trabalho, não somos mais os mesmos. Na verdade somos e não somos. João Carvalho quer mostrar o quão magnifíco é este momento que está vivendo, mas não sabe a força que tem. Rio Sem Nome é epifânico, transformador e um grande transe de reflexão. Um disco que reflete um compositor que resolveu encarar a vida da única e melhor maneira possível: intensa. Experimentamos o álbum como é dito na última faixa do registro, Alvorada: “Não há fuga, não há o que fazer”.

Apenas viver.

(Rio Sem Nome em uma faixa: Alvorada)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.