Resenhas

Robert Glasper, Miles Davis – Everything’s Beautiful

Pianista americano arremessa a música de Miles Davis para o futuro agora

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Ano: 2016
Selo: Columbia/Legacy
# Faixas: 11
Estilos: Hip Hop, Jazz Funk, Alt-R&B
Duração: 46:57
Nota: 4.5
Produção: Robert Glasper

Não lembro de ver a grande imprensa brasileira endeusando Robert Glasper, algo que seria não só justo como absolutamente normal, se tivéssemos gente antenada por aí. E por que deveriam venerá-lo? Porque o sujeito é uma das referências na atualização da dita “música negra” norte-americana da contemporaneidade, um cara que nasceu nos braços do Jazz, aprendeu a tocar piano, arranjar, compor, pensar e sentir a música de suas origens mas, como a maioria de moleques americanos nascidos da década de 1980 pra cá, encantou-se e viu-se traduzido pelo Hip Hop. No caso de Glasper, ele mesmo nascido em Austin, no Texas, em 1978, não foi diferente. Com o passar do tempo, o homem encontrou sua sonoridade, ganhando respeito em vários meios, surgindo, ao mesmo tempo, como força criativa e referência. O feito mais recente de Glasper é o score da trilha sonora de Miles Ahead, a aguardada cinebiografia de Miles Davis, com Don Cheadle vivendo o grande trompetista americano. Glasper não está para brincadeira, pessoal.

Este belo Everything’s Beauty é descendente direto da recém-descoberta proximidade estética de Robert com a obra de Miles. Não é um tributo, nem uma coletânea de remixes ou um álbum de covers, mas reinterpretações cheias de modernidade, buscando levar trechos ou composições inteiras do homem para a ambiência deste 2016 estranho que vivemos. É o que entendemos por “reimaginação” de várias gravações de Miles, coisa bonita de ser ver e ouvir, tudo feito com bom gosto e conhecimento de causa. O método usado por Robert é o de adicionar elementos às gravações originais de Miles para o selo Columbia/Legacy, realizadas entre 1955 e 1985. Não só suas intervenções ao piano, mas as de muitos colaboradores, parceiros e amigos, que participam da empreitada, dando a pinta de um projeto realmente colaborativo e com várias cabeças pensantes, o que é sempre uma boa característica.

A abertura com Talking Shit pega emprestadas conversas de Davis com o baterista Joe Chambers em 1969 e introduz o álbum. Georgia Anne Muldrow, tão virtuosa e sintonizada com o presente-futuro quanto o próprio Glasper, surge abrilhantando a releitura de Milestones, originalmente gravada por Miles em 1958. A canção parece entrar numa dobra espaço-tempo aos moldes dos episódios clássicos de Star Trek. o vocalista Bilal participa majestosamente de Ghetto Walkin’, enquanto o rapper Illa J enche They Can’t Hold Me Down de batidas Hip Hop elegantes e econômicas, preservando, em ambas, uma ambiência Jazz Funk típica do próprio Miles Davis em fins dos anos 1960, início dos anos 1970. Violets também traz um rapper/produtor, no caso, o americano Phonte, mas o clima que é proposto por aqui tem mais a ver com uma “slow jam”, as chamadas “melôs mais lentas”, propulsionada pelo piano elegante de Robert Glasper.

Mais adiante pelo álbum, encontramos a bela Maiyshia (So Long), uma bossa estilizada e eletrônica, com vocais aveludados de Erykah Badu, enquanto Little Church, composta por Miles em parceria com o bruxo brasileiro Hermeto Pascoal, ganha nova roupa eletrônica. O mesmo acontece com outra faixa emblemática dos períodos mais experimentais da carreira do músico, a bela Silence Is The Key. A melhor faixa deste álbum impressionante é, sem dúvida, I’m Leaving You, que se ergue numa levada Funk’n’Blues, com a presença da voz abençoada de Ledisi, com direito à presença ao vivo do guitarrista oitentista de Miles, John Scofield. Como se não bastasse, ninguém menos que Stevie Wonder surge no fim do trajeto musical com Right On Brother, com direito a samples das gravações originais de Davis transmutadas para uma ambiência Funk Eletrônica de fazer inveja.

Robert Glasper é o cara. Percebeu a conexão entre a improvisação/liberdade do Jazz com a modernidade tecnológica/urbana. Fez um álbum irretocável exaltando o espírito aventureiro de um ícone da música popular do século 20, trazendo-a para o século 21 sem a presença de um único trumpetista, a não ser o próprio mestre. Sutilezas são para poucos e bons. Discaço.

PS: ouçam o álbum de 2012 de Glasper, o soberbo Black Radio, e sigam esse sujeito aonde ele for.

(Everything’s Beautiful em uma faixa: I’m Leaving You)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.