Resenhas

Robert Plant – lullaby and… The Ceaseless Roar

Novo álbum é cheio de nuances e influências étnicas pós-modernas

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Ano: 2014
Selo: East West/Warner
# Faixas: 11
Estilos: Folk Rock, Folk, Blues
Duração: 49:25min
Nota: 4.0
Produção: Robert Plant

A análise deste novíssimo e sensacional álbum de Robert Plant exige uma pequena digressão. Enquanto eu escutava atentamente suas onze faixas, me peguei lembrando de um programa do chef inglês Jamie Oliver, o grande superstar dessa tendência pós-moderna que aliou a culinária aos desafios e superações da vida cotidiana. Pois bem, em um de seus programas especiais, Oliver mostrava como a comida feita na Velha Ilha podia ser sensacional, ao contrário do que apregoava sua péssima fama através dos tempos. O argumento principal do chef era a diversidade que poderia ser encontrada nos restaurantes e, principalmente, nos caminhões e trailers de comida de rua, que refletiam uma multiplicidade de influências, vindas tanto de ex-colônias britânicas, como Estados Unidos, Índia e a Jamaica, bem como de áreas de influência do antigo Império, como a Tailândia, a China e o norte da África. Robert Plant, ex-voz do mítico Led Zeppelin, oferece há tempos uma espécie de banquete etno-musical, cheio de influências distintas. Agora, neste álbum, encontrou o ponto certo na mistura.

Plant vem de um hiato de quatro anos sem gravar, mas passados na estrada, em turnê com sua banda Sensational Space Shifters, honrando seus álbuns recentes, sobretudo Band Of Joy (2010) e Mighty Rearranger (2005). Entre eles, o cantor registrou Raising Sand (2007), em parceria com a cantora americana Alison Krauss. Todos estes discos eram muito mais americanos que universais, com Plant incursionando firmemente pelas searas do Folk, do Bluegrass e do Blues nas tradições ianques, com o habitual olhar e admiração que britânicos têm pela América mitológica. Agora ele resolveu mirar sua abordagem mais ampla para os elementos tradicionais dessa Inglaterra múltipla e cosmopolita, que traz em si a tradição dos povos saxões e o caldo cultural das nações do Império. É tudo extremamente belo, moderníssimo e plural, ao mesmo tempo em que parece uma viagem guiada por algum evento na Floresta de Sherwood. A paixão que Plant tem por ritmos do norte da África, algo que ele divide com Jimmy Page desde os tempos imemoriais de Zeppelin, também está presente e se mostra o grande referencial estrangeiro a validar o casamento entre o europeu e o mundial. E tudo clica.

A abertura vem com Little Maggie, uma canção folclórica tradicional, propulsionada por bandolins, banjos, flautas e uma programação de bateria/percussão eletrônica que servem de moldura para a velha e potente voz sussurrada poderia tocar na playlist duma estação espacial, tamanha sua contemporaneidade. Tambores marroquinos abrem Rainbow, com vocais característicos, guitarras, baixos e um clima de fim de mundo que se aproxima. Pocketfull Of Golden é mais uma preciosidade multidisciplinar, com climas acústicos e eletrônicos, entre cordas sintetizadas e guitarras prestes a eclodir em algum lugar e momento da canção. Embrace Another Fall tem espaço para Plant exercitar seus cacoetes vocais e ver-se imerso em nuances mediterrâneas e rítmicas, sem abrir mão da noção Pop.

Turn It Up começa intrincada, cheia de percussão e cordas estranhas, com Plant balbuciando antes da entrada de um belo riff de guitarra e uma levada intrincada, que conduz a canção mais zeppeliniana do álbum. A Stolen Kiss é uma lindíssima balada tradicional ao piano, que está presente para nos lembrar do grande cantor que ainda reside em algum lugar nas cordas vocais do velho Robert. Mais clima além-Marrakesh preenchem a luminosidade de Somebody There, com guitarras e violões clássicos por todos os cantos, abrindo passagem para a aerodinâmica Poor Howard, cheia de possibilidades dançantes não-óbvias e riffs de banjo utilizados a favor da contemporaneidade. Cordas lindamente arranjadas abrem a mais bela do álbum, House Of Love, com arranjo de guitarras e bateria tribal totalmente incorporada. Up On The Hollow Hill (Understanding Arthur) promove o encontro de mouros do norte da África com os Cavaleiros da Távola Redonda numa esquina do East End londrino, pavimentando o caminho para o enigmático final de Arbaden (Maggie’s Babby), canto-falada em celta ou outro idioma ancestral.

A carreira solo de Robert Plant sempre esteve razoavelmente afastada dos caminhos percorridos pelo Zeppelin enquanto esteve no ar, entre 1968 e 1980. Agora, com este novo trabalho, ele nos dá uma pequena amostra do que poderia ser esta banda magnífica hoje, totalmente criativa, caso Jimmy Page e John Paul Jones, igualmente criativos e atuantes, viessem se juntar. O resultado seria insuperável. De qualquer forma, Robert faz a sua parte e não deixa ex-fãs sentirem qualquer tipo de saudade. Sua obra longe dos ex-companheiros tem vida e características próprias.

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BOM PARA QUEM OUVE: Benjamin Booker, Ryan Adams, Jack White
ARTISTA: Robert Plant
MARCADORES: Ouça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.