Resenhas

Rochelle Jordan – Play With Changes

Sete anos após disco de estreia, cantora britânica retorna com celebração, impulsionada por discurso contundente, à cultura de Rave e ao R&B dos anos 1990

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Ano: 2021
Selo: UNDRGND/ Young Arts
# Faixas: 11
Estilos: House, Drum ‘n Bass, UK Garage, R&B
Duração: 46'
Produção: KLSH, Machinedrum e Jimmy Edgar

Rochelle Jordan é uma artista que fez dos anos 1990 o seu templo criativo e já em seu primeiro disco, Origins (2011), ela mostrou que, além disso, se inspira em elementos distintos dessa época. O R&B é o direcionamento mais evidente, o que rendeu comparações, por conta de seu timbre de voz, com cantoras como Aaliyah e Amerie.  Mas, para além da voz, a produção de suas faixas parece sempre respeitar a devoção da artista a esse período – ou a essa linguagem. Mas não é só do R&B que Rochelle Jordan se alimenta. A última década do milênio passado também ressoa a partir de uma cultura mais subterrânea que dominou boa parte do mundo: as Raves. De uma forma mais tímida em seus primeiros registros e ganhando mais espaço nos lançamentos mais recentes, os subgêneros da música eletrônica se fundem à mansuetude do R&B, criando um ambiente verdadeiramente único. Ao mesmo tempo que somos direcionados para texturas calmas, a percussão eletrônica não nos deixa ficar parados. Cria-se assim, uma proposta extremamente autêntica.

Partindo disso, a cantora britânica – e que vive em Los Angeles – parece agora aproveitar ao máximo as potencialidades deste universo que criou. Em seu novo disco, Playing With Changes, sete anos depois, há um movimento que a princípio parece contraditório, mas que é primordial para o propósito do disco. Em outros trabalhos, o R&B e os subgêneros da música eletrônica se fundem em uma amálgama indissociável, como duas coisas ao mesmo tempo. Mas, neste álbum, há uma divisão muito nítida do que é aproveitado de cada gênero musical. Enquanto as melodias vocais seguem o caminho do R&B (com toques da música Gospel), a linha instrumental se foca quase que exclusivamente nos elementos de House, UK Garage e Drum n Bass. Há uma sensação geral de que esses elementos são ressaltados de forma mais evidente para o ouvinte. O que antes era percebido como pontual, agora são totalidades que coexistem. E mesmo ocupando espaços maiores, as partes não se interferem negativamente. A afiada escolha de produtores como KLSH, Machinedrum e Jimmy Edgar foi decisiva para acertar o encaixe das diferentes referências de uma forma fluida e harmônica.

Entretanto, essa decisão de separar os elementos em prol de ressaltá-los não tem uma finalidade meramente estética. O disco serve também aos discursos sobre empoderamento e reconhecimento da história negra que aparecem a partir das letras. Um de seus argumentos está justamente na forma como a cultura negra está na base de cada um desses gêneros que constroem sua sonoridade. A proposta de deixá-los mais “puros” e evidentes parece vir de um lugar de priorizar a essência da construção de cada um. Assim, conforme afirma em entrevista para o Bandcamp, Rochelle traz uma forma de concretizar uma presença (e resistência) negra que muitas vezes é silenciada pela hegemonia branca de produtores: “Nós criamos as raízes de todos os gêneros, não é mesmo? Nós pertencemos a todos eles”.

O disco já começa em alta velocidade com a potente “Love You Good”, uma mistura precisa de vocais aéreos no estilo Sade, com um Drum n Bass frito e nervoso. Já o single, “Got Em” traz com força os graves de sintetizadores típicos dos anos 1980, com toda a estética dançante dos clubes desta década. “Broken Steel” conta com o flow ácido da rapper Farrah Fawx em meio a uma batida mais lenta e repleta de referências do Trap mais moderno – gênero também enraizado pela cultura negra. “Already” é o momento de trazer a House Music para o holofote, com os vocais típicos do R&B e a sensação acolhedora de sintetizadores suaves. “Lay” dispensa percussões e alivia a tensão, apesar de doa aspecto de nostalgia VHS, que oscila as tonalidades dos instrumentos. O disco termina com “Situation”, em um tom agitado e animado, mas que conserva uma dose de Ambient Music no seu fundo.

Naquela mesma entrevista para o Bandcamp, Rochelle Jordan comenta que muito de Play With Changes vem da junção de referências distintas da sua vida – da cultura de Rave absorvida em suas visitas a seus familiares jamaico-ingleses à coleção de fitas cassete Gospel, Soul e R&B que seu irmão tinha. A música é parte da história pessoal de Rochelle, e ela é parte essencial desta cultura. E Play With Changes busca construir pontes entre diferentes artistas e linhagens da música pop – uma música pop negra.

(Play With Changes em uma faixa: “Got Em”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.