Parte metalinguagem, parte desabafo, a obra de Rodrigo Ogi e Nill deixa claro seu ímpeto já no título: Manual Para Não Desaparecer. Em um cenário no qual a atenção do público é fragmentada pela divulgação incessante de novos singles/discos, manter-se relevante parece ter mais a ver com lançar sem parar do que com criar algo realmente impactante. Não “desaparecer”, nesse cenário hiper conectado e lotado de ruído, é um desafio e tanto, mas não se preocupe – a dupla tem um Manual para isso.
Desafiando a lógica algorítmica ou ainda a do feat pelo feat, Ogi e Nill se unem de forma nada inesperada. A afinidade, para além da coexistência na cena, está também na forma como os dois são capazes de desenvolver poderosas crônicas sobre suas experiências profundamente citadinas. Ogi com um lirismo cotidiano e observador; Nill, por meio de um frescor pop e uma ironia fina. O respeito entre eles e a reverência mútua se transformam em um processo criativo riquíssimo.
Essa não é a primeira vez que Ogi e Nill colaboram, mas até então não haviam criado algo tão extenso e profundo. Ambos parecem estar em casa – não à toa, assumem também a produção do disco, com beats que aglutinam elementos de samba, house, k-pop e até trilhas de animes. Estar em casa e à vontade também significa chamar convidados ilustres, e é aí que entram nomes como Jamés Ventura, Cravinhos (Maria Esmeralda), SonoTWS, Matéria Prima e Roberta Estrela D’Alva, além de CESRV (que assume o papel de mixagem e masterização).
Tematicamente, o duo nunca esteve tão afiado. São letras que refletem o esgotamento das redes sociais (“Flash”) e de como estamos aprisionados a elas (“Abdul São”). Eles também discutem o impacto dos algoritmos em âmbitos mais pessoais (“Algoritimado”) e no próprio fazer artístico (“O Plano de Cronos”). No centro de tudo, permanece o desejo de conexão. Assim, o “não desaparecer” do título ganha ainda mais significados, expandidos para a “vida real” (e não apenas na arte).
Mais do que um belo e procedente título, Manual Para Não Desaparecer funciona como tese sobre o ato de permanecer – seja como artista ou sujeito, em um tempo no qual tudo parece projetado para dissolver a singularidade. O disco é atravessado por essa tensão entre o desejo de expressão artística autêntica e o esvaziamento imposto pelas lógicas do mercado, da performance e da visibilidade. Ogi e Nill respondem a esse impasse não com certezas, mas com canções que ressoam dúvidas e incertezas. E o humor e a poesia surgem como formas de resistência. É nesse equilíbrio entre o íntimo e o coletivo, entre a lucidez e o delírio, que o álbum encontra sua força e seu lugar: um manual sem respostas prontas, mas necessário para seguir existindo.
(Manual Para Não Desaparecer em uma faixa: “Abdul São”)
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