Resenhas

Roulet – Beats d’Amor

Produtor se volta ainda mais pro introspecto e lança álbum que mais parece um roteiro da história de um relacionamento

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Ano: 2013
# Faixas: 14
Estilos: Chillwave, House, Experimental
Duração: 34"30
Nota: 4.0
Produção: Tiago Trole

Nada como estar em casa novamente. Tiago Trole, ou Roulet para a cena musical, partiu desse pressuposto para surpreender a todos com álbum que resenhamos aqui em fevereiro. O produtor, conhecido por suas produções todas sempre com influências portuguesas do Kuduro, Afro, Breakbeat, fazia parte do ciclo que entrava e saia de músicas nas rádios. Home Again foi uma representação da saída dos clubes e entrada em sua “casa novamente”, em seu quarto e seu âmago. Quase sete meses depois, Tiago sai de seu quarto para conhecer alguém. Eis onde chegamos em Beats d’Amor.

O álbum mantém o extenso número de faixas, mas muda em seu conceito. Enquanto Home Again tem uma proposta ainda marcada (e até dançante) em sua primeira parte, percebe-se que o Beats d’Amor convida a uma dança a dois. Enquanto Home Again prevalece-se o idioma inglês, agora já temos bastante português nos nomes das faixas. Aquele patriotismo e simplicidade quando conhecemos alguém, quando nos impressionamos, quando temos as borboletas no estômago. O registro é sobre isso e só isso. É como se o álbum fosse a trilha de todo um relacionamento, desde os Olhares (que é a primeira faixa), com a abordagem, descrição da garota, O Sonho, a sedução até o beijo (The Kiss), o encontro e por aí vai. Roulet nos conduz no que entende por relacionamento, o que aquelas sensações implicam pra si em notas musicais. Resultado? Temos uma compilação um pouco mais intimista, mais introspectiva, desconfiada e encantadora.

Mais uma vez, Trole usa elementos de outros gêneros para fazer seu híbrido experimental. Desde o 2-step, ao Soft Dubstep, Soul e R&B são alguns pacotes escolhidos para que se construa a atmosfera de verossimilhança entre o amor e a música. E é verossímil a partir da ideia que o produtor se apropria de seus próprios sentimentos para escolha dos elementos de cada música, entendendo que uma aproximação é sinônimo de insegurança, a Sedução Momentânea tem de ser marcante, The Kiss tem um minuto que se perde dentre a tantas sensações florais. Continuamos com Date e seus módulos densos como um encontro formal que se mistura a empolgação de início e o medo de não impressionar até chegarmos Na Praia, em que aquele tom sério de dissipa e dá espaço para um ar leve, romântico, oportuno e profundo. Chegamos na parte em que nossos personagens se notam em reciprocidade, deixando para trás qualquer tom de impulso ou incerteza. Agora Roulet dá espaço a Mr V.R. para escrever Amor em português e Love, em seguida. Como se uma completasse a outra em esferas diferentes, como duas almas que pensam e desejam o mesmo em prismas diferentes, perspectivas diferentes. E, de forma bem didática, quando isso acontece chegamos nas Desconfianças. A penúltima faixa tem uma atmosfera tensa, arrastada, sufocante, como quando a agonia se instala e não quer ir embora. A nuvem é espessa quase que bloqueando a visão racional por completo.

Não sabemos o fim da história, ou se houve um fim. O desfecho se dá por Sweet Dreams, o que dá um final em aberto para os ouvintes. Se esse roteiro tinha data de validade vai depender de cada interpretação, mas Roulet provou ser capaz de construir esse roteiro e isso já se mostra como missão cumprida. O álbum está mais aberto com camadas de sons, um pacote mais floral e menos malemolente como o primeiro. Beats d’Amor volta a narrativa ainda mais pra dentro de Tiago, do introspecto de seus sentimentos e, a partir disso, sabemos de todos seus segredos sob a visão do produtor. Do interesse ao beijo. Dos olhares ao encontro. Do amor à desoconfiança. Do começo ao fim. Trole deu sua cara a tapa mudando de gênero com Home Again e agora, com vulnerabilidade, dá o corpo todo. As “batidas do amor” são sinceras e soam como um coração pulsante pela paixão, aquele que dispara quando encontramos a pessoa certa.

Continuando com a metáfora de um relacionamento, quando um grande amor se afasta causa uma aversão de comportamento digno de uma mudança 180 graus. No caso de Roulet, algumas faixas do Kuduro voltam a ser produzidas em seu Soundcloud oficial. Se isso é exercício de desapego ou superação, nunca vamos saber. Mas adianto que sua experiência de trazer um registro a partir de experiências deu certo e surpreende de novo.

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BOM PARA QUEM OUVE: Ital Tek, Flying Lotus, Burial
ARTISTA: Roulet

Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King