Resenhas

Roulet – Home Again

Produtor português foge de suas antigas influências africanas para mostrar seu lado-B com um álbum mais Chillwave e experimental

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Ano: 2013
# Faixas: 13
Estilos: Chillwave, House, Dubstep
Duração: 32:25
Nota: 4.5
Produção: Tiago Trole

Também no time de novos produtores, Tiago Trole, mais conhecido como Roulet, com apenas 22 anos, já chamou atenção da crítica especializada. A primeira vez do contato de seu nome com a cena eletrônica foi com seu trabalho de estreia em 2010, trazendo um BPM mais avançado (cerca de 140) brincando com ritmos do Kuduro, bem próximo do que o Buraka Som Sistema faz atualmente. O que é bastante coerente, já que em Portugal recebe muita influência de Afro e Breakbeat. Segundo Trole, suas inspirações giram em torno do que ele enxerga na rua, no rádio ou em suas saídas noturnas. Nesse início, além do gênero africano, Trole misturava batidas de Electro com Club e House.

Entretanto, o português sempre se categorizou como produtor de “dois mundos diferentes”. Além do BPM avançado, as batidas lentas sempre tiveram espaço em suas produções. Home Again entra justamente aí. Seu novo trabalho tem treze faixas que ovacionam seu lado-B de forma suave e relaxada.

As músicas tem pequenas doses sinestésicas das mais variadas sensações que possam existir. Rise and Shine abre as alas trazendo em pouco mais de 60 segundos o gosto que teremos com Home Again. O produtor segue a linha instrumental, passando desde o Lounge Chillwave até o “Soft” que ouvimos bastante com Four Tet. I Can Make This mostra a incrível a habilidade que Trole tem de misturar uma percussão lenta com uma nuvem de sintetizadores relaxantes e instrumentos clássicos como piano e guitarra. Estamos falando da melhor e mais completa faixa do álbum, que deveria facilmente levar o título que deu para Sunny Day. Seu ímpeto de trazer o piano para as produções continua em Atilua e She Is, essa última também com notas de baixo. É possível observar uma influência direta de James Blake com Simples Olhar, contendo sintetizadores sombrios associado a uma percussão complexa, e Here for You, em que ruídos fazem parte da música e a distorção vocal tem seu espaço.

Sua alma africana é lembrada em Uva, que traz samples e uma percussão que facilmente poderia ser trocada por tambores, porém com uma roupagem relaxante. Angel é sóbria, tem sussurros e joga a boas sensações pra trás. A seriedade vai embora com That Afternoon, que brinca com chucalhos, palmas e sons de mensageiro dos ventos, trazendo a tranquilidade como a sensação de vento no rosto. A calmaria dá espaço à linearidade sombria de Night, com sua percussão macia e seus sintetizadores leves e densos, mesclando com mais palmas e estralos. Pra finalizar, Odivelas sai da normalidade e mostra uma necessidade de adequar o sensorial à pista, aplicando um BPM mais alto, resgatando o House com pitadas de piano e samples de vocal esporádicos.

Home Again é um álbum sinestésico. Conseguiu misturar de forma esplêndida sensações completamente distintas, desde a liberdade ao sufoco, da sobriedade à plenitude. Roulet deu a cara à tapa a uma nova faceta, se mostrando infinitamente mais maduro e sincero. Trale se encontrou vulnerável e à flor da pele, tendo a necessidade de comunicar isso com sua música. Tal comportamento gerou produções com mais confiança e originalidade. Com excessão de Odivelas, o álbum é coerente. Uma boa opção seria Roulet abordar, em um próximo trabalho, essa pegada mais House, que ele também demonstrou ter habilidade, trabalhando em cima do BPM 115-122. Se o produtor é mesmo considerado tão eclético, é de se preocupar que linha deverá seguir no futuro e se isso denotará falta de identidade. Porém, sem dúvida alguma, seu lado “Soft” provou que pode continuar nesse caminho que sua fonte de inspiração tem muito a que ser trabalhada. Roulet é novo e ainda tem muita coisa boa a mostrar.

O álbum pode ser baixado de forma gratuita no Basecamp.

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BOM PARA QUEM OUVE: Four Tet, Burial, James Blake
ARTISTA: Roulet

Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King