Resenhas

Run The Jewels – RTJ4

Quarto disco é o mais político e combativo desde a estreia e uma prova de como o duo é indispensável em qualquer conversa atual sobre música consciente e revolucionária

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Ano: 2020
Selo: Jewel Runners / BMG
# Faixas: 11
Estilos: Rap
Duração: 38'
Produção: El-P

O duo Run The Jewels, composto pelos veteranos Killer Mike e El-P, já figura entre os grupos mais inovadores e instigantes que apareceram no cenário do Rap na última década. A aproximação improvável entre Killer Mike e El-P, dois MCs vindos de regiões e tradições distintas do Rap, trouxe ao mundo, a partir de 2013, a série de álbuns batizada de RTJ ou Run The Jewels, uma rara demonstração de habilidade lírica, inventividade e irreverência que tem melhorado a cada nova edição.

O quarto álbum da série, RTJ4, embora retenha boa parte da sonoridade e da estética dos seus predecessores, é o mais combativo dos quatro e, mais do que nunca, demonstra a ira e a indignação frente ao atual estado das coisas nos EUA e no mundo. Produzido em grande parte pelo próprio El-P, trata-se de um álbum alto, agitado e urgente que não dá espaço para o ouvinte respirar por um segundo sequer. A potência e atualidade das críticas e questões expostas ao longo do repertório simplesmente tornam impossível ouvi-lo de forma indiferente ou desinteressada.

Por conta do assassinato brutal de George Floyd por policiais da cidade de Minneapolis no dia 25 de maio e da onda de protestos ao redor dos EUA que seguiram o incidente, o lançamento de RTJ4 foi antecipado como uma resposta ao clima político e social do país. A propósito da antecipação do lançamento, o duo escreveu em suas redes sociais: “por que esperar? O mundo está infestado com m*rda, então aqui vai algo bruto para vocês ouvirem enquanto lidam com tudo isso. Esperamos que isso traga alegria a vocês.”

O anúncio surpresa do grupo parece sintetizar a natureza catártica do álbum, pois nele o duo descarrega toda sua raiva, indignação e insatisfação com o mundo de hoje até chegar em um ponto de purificação no qual é possível ver tudo com mais clareza e propósito. Desde o início explosivo do trabalho, com “yankee and the brave (ep. 4)”, em que a dupla se reapresenta e nos relembra da harmonia invejável entre os dois MCs, somos expostos ao longo das faixas a uma diversidade de temas profundamente atuais: violência policial, racismo, o próprio Rap, o capitalismo e as elites do capital financeiro, além de tantas outras questões.

O potencial inflamatório do álbum aumenta ainda mais com ajuda de colaborações de peso que acompanham El-P e Killer Mike. Em “ooh la la” temos a participação de duas figuras lendárias do Rap de Nova York: Greg Nice (Nice & Smooth) e DJ Premier (Gang Starr, PRhyme), que trazem de volta a sonoridade clássica da era de ouro do Rap de NY dos anos 80 e 90. A faixa “out of sight” traz 2 Chainz, um dos grandes nomes do Trap do sul dos EUA. Em “JU$T”, possivelmente o ápice do álbum, há as aparições incendiárias de Pharrell Williams e Zach De La Rocha (Rage Against The Machine), que dão potência ao refrão impiedoso – “olhe para todos esses senhores de escravo posando no seu dólar”. Finalmente, a sombria “pulling the pin” conta com participação de Josh Homme (Queens of The Stone Age) e a veterana Mavis Staples.

Se fosse resumido em uma palavra, RTJ4 poderia ser definido como um álbum necessário. Necessário para nossos tempos, para as gerações que virão, para os ouvintes de Rap e para quem nunca teve experiência com o gênero. O álbum – que também é um manifesto, uma aula de história e um manual para ler antes de um protesto – é certamente um dos trabalhos mais relevantes lançados nos últimos anos e prova mais uma vez como o Run The Jewels permanece na vanguarda do Rap internacional e é presença indispensável em qualquer conversa sobre música consciente e revolucionária.

(RTJ4 em uma faixa: “JU$T”)

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