Resenhas

Rustie – Green Language

Obra oscila entre faixas instrumentais e outros estilos consolidados, mas carece de uma boa direção

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Ano: 2014
Selo: Warps Records
# Faixas: 13
Estilos: EDM, Trap, Dubstep
Duração: 36:46
Nota: 3.0
Produção: Rustie

Podemos considerar que uma das vertentes mais amplificadas da EDM no últimos anos foi o Dubstep. Jovens produtores como Skrillex pareciam criar um estilo fragamentado com diversas referências e cortes imediatos – algo propício para uma geração acostumada à exposição de diversas mídias e sensações – que seria muito bem aceito e disseminado no meio musical. Dentre as suas diversas excursões e novos nomes, Rustie sempre foi um dos mais promissores: seu disco de 2011, Glass Swords já trazia, nas suas batidas quebradas e lentas com as típicas linhas de baixo mutantes do gênero, um ar novo e fresco e representaria naquele ano um dos melhores trabalhos de EDM lançados.

O escocês retorna agora com Green Language, que se adequa bastante com as recentes entrevistas do produtor que afirmou que Glass Swords havia sido um trabalho muito maluco e que queria conduzir as coisas de forma mais sérias agora. Mas a pergunta que paira sobre as nossas cabeças é: mais sério é necessariamente melhor? Obviamente, podemos sentir uma vertente um pouco mais “fina” do som de Rustie, que continua a sua bela produção e seu pente fino sendo passado em cada faixa – as duas introduções instrumentais Workship e A Glimpse mostram uma preocupação atmosférica com seus sons, mas não chegam a chamar tanta atenção. Raptor traz o melhor do seu “Lazer Hip Hop” em uma nova forma com batidas constantes e progressivas que poderiam ser trilha sonora de um jogo de corrida espacial como F-Zero, mas, mesmo assim, algo parece faltar.

Rustie – Attak (feat. Danny Brown)

O disco pode ser dividido em duas partes: instrumentais e exercícios para as pistas de dança. Ambos podem não ser muito bem compartilhados dentro de uma mesma festa que toque EDM e talvez por isso não funcionem como unidade dentro deste trabalho. Se quando Rustie se deixa levar mais a sério aparecem as curtas, boas e muitas vezes inacabadas, Paradise Stone (Eletrônico de veraneio e perfeito para um comercial) ou Velcro ( faixa 8-bits moderna e divertida, condizente com a geração digital), é nos momentos que ele tenta se divertir um pouco mais que as coisas começam a fluir melhor. Apesar de não serem muito inéditas ou inovadoras, as músicas que tem partipações de rappers funcionam muito bem – Up Down com D Double E lembra bastante os trabalhos do britânico Dizzie Rascal, Hip Hop frenético típico da ilha da Rainha, enquanto Attak com Danny Brown é umas melhores faixas de Trap do ano. Os versos do insano e rápido MC de Detroit são possivelmente o melhor momento de todo disco, mas o produtor não está reinventando a roda mas, só trabalhando-a muito bem.

No entanto, a troca sucessiva entre faixas agitadas, mas usuais, e outras instrumentais mais atmosféricas acaba atrapalhando o andamento do disco. Não é dificil ter uma quebra do clima anterior entre cada música e, mesmo o seu lado mais sério, mostrando uma nova face do músico, com certeza mais experimental, não consegue cativar muito o ouvinte. Lost com Redinho tem uma versão genérica do vocoder usado excessivamente por Daft Punk e Chromeo e o disco poderia acabar em Lets Spiral sem a insossa faixa título do álbum, que acaba encerrando o trabalho de forma bocejante. Apesar de grandes músicas e algumas boas experimentações, Rustie parece meio perdido na direção de Green Language – sem saber muito bem para onde conduzi-lo, mas com ideias aparentemente bem estabelecidas em sua cabeça. O produtor prefere ser conservador nos seus hits, enquanto não consegue realmente desenvolver o seu lado sério. Tipicamente, podemos considerar esta obra como uma transição de fases, algo que certamente só iremos entender quando seu terceiro disco vir a tona pois por enquanto ainda preferimos a continuar a ouvir o ótimo Glass Swords.

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BOM PARA QUEM OUVE: Flume, Skrillex, Diplo
ARTISTA: Rustie
MARCADORES: Dubstep, EDM, Trap

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.