Resenhas

Ryan Adams – Ryan Adams

Novo álbum acena com canções simples e melancólicas

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Ano: 2014
Selo: Sony
# Faixas: 11
Estilos: Alt. Country, Indie Rock, Rock
Duração: 42:38min
Nota: 4.0
Produção: Mike Viola, Ryan Adams

Aqui vai um tostão confessional para você, leitor/a: quando eu ouvi falar em Ryan Adams, foi como um dos integrantes de uma banda da onda Alt. Country, do fim dos anos 1990, Whiskeytown . Era meu pré-30 anos, um tempo em que as estradas faziam muito sentido. Acredite, você ainda vai experimentar esse período estradeiro, seja vencendo distâncias através delas, seja imaginando para onde iria caso tivesse acesso irrestrito, que inclui no pacote deixar tudo para trás. De alguma forma, aquele pessoal americano acenava com essa visão para mim, a de reinvenção de um Rock meio Punk, meio Country, meio tradição, meio adolescente sem se fosse necessário quebrar as paredes de casa ou destruir a escola.

Ainda que Adams tenha correspondido a esta expectativa cinemática de minha parte em alguns discos de sua carreira solo, sua música perdeu um pouco do foco através da última década. Compositor, cantor, produtor, sujeito prolífico que é, Ryan ganhou o mundo a partir de sua Jacksonville natal, mas nunca deixou sua cidade sair de seu imaginário e, por susto, bala ou vício, a vida nunca deixou que ele largasse essa persona adolescente sulista, algo que lhe serve bem neste seu novo trabalho. Ele emergiu de tempos complicados, cheios de problemas pessoais e mazelas como a Doença de Méniére, que quase comprometeu sua audição. Seus demônios pessoais também ameaçavam tomar conta quando conheceu a atriz Mandy Moore, com quem se casou em 2009. Este álbum homônimo é o primeiro desde 2011, encerrando um hiato anormal na consistente trajetória do sujeito.

Como o título do disco acena, a ideia de Adams é simplificar as coisas, o que, neste caso, volta para o tal período estradeiro a que me referi antes, num feixe de doze canções belas, singelas, com arranjos para uma bem azeitada banda no estúdio PAX AM, que Ryan construiu em Los Angeles, ao qual ele se refere como sendo seu Millenium Falcon, em nérdica alusão à nave de Han Solo na primeira trilogia de Guerra Nas Estrelas. Lá, ele é o senhor das demandas e faz o que quer. Orientou seu parceiro Mike Viola, que assumiu a cadeira de produtor, a fazer um disco de Rock americano clássico, sem firulas, sem complicação e com um forte acento Pop, termo que se aplica aqui no sentido cantarolante das melodias, nunca dançante. São músicas que poderiam tocar na programação noturna das FM’s imaginárias, quando estamos indo de uma cidade para outra (olha as estradas aí novamente).

Deste jeito, há dois tipos básicos de canção aqui: as mais vibrantes, como a boa abertura em Gimme Something Good, anunciada pela comunhão entre órgão e guitarras, lembrando subclássicos de Tom Petty, e Kim, a faixa seguinte, que enuncia o segundo tipo, uma semi-balada, cheia de passagens fluidas e dotadas de uma melancolia insinuante, quase convidativa. O que parece sinônimo de monotonia, transforma-se em declaração de intenções já na terceira faixa, Trouble, que contém gens de Springsteen e Fleetwood Mac em porções quase iguais. Am I Safe, logo em seguida, novamente baixa a bola para níveis mais lights, com levada de violão e andamento aerodinâmico sem esquizofrenia. A balada My Wrecking Ball é canção noturna, com luzes da cidade pelo vidro do carro, indo e vindo. Stay With Me é balada clássica, com guitarras se sobressaindo e lembrando algumas canções dos anos 1980, Shadows é outra canção noturna e misteriosa, enquanto Feels Like Fire e I Just Might são 100% Bruce Springsteen, sem a solenidade do Boss.

As melhores canções do álbum ficaram para o final, justamente as que mais lembram o início de sua carreira, ainda integrando Whiskeytown. Tired Of Giving Up é um recado para (si mesmo?) os que desistem de algo em função das adversidades, emoldurado por um clássico andamento Alt. Country, adocicado e harmonioso ao máximo. E o fecho de ouro vem com a linda Let Go, que é a clássica canção estradeira, lembrando Josh Rouse inicial, que minha mente insiste em compreender como sendo o melhor que Adams é capaz de oferecer, seja como cantor, compositor ou produtor. Se Ryan quis gravar um álbum maduro, bem feito, com deliciosa verve acenando para si mesmo há dez, quinze anos, não poderia ter alcançado melhor resultado.

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ARTISTA: Ryan Adams
MARCADORES: Indie Rock, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.