Resenhas

Ryley Walker – Primrose Green

Segundo álbum de cantor e compositor americano é uma joia atemporal do Folk

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Ano: 2015
Selo: Dead Oceans
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Folk Jazz , Chamber Folk
Duração: 44:30
Nota: 4.5
Produção: Cooper Crain

“Moças e rapazes, que beleza de disco”. Há cerca de um ano, eu começava dessa forma a resenha do trabalho anterior de Ryley Walker, All Kinds Of You e posso cravar que o elogio continua valendo para este segundo álbum, Primrose Green. A equação sonora do sujeito é a mesma: revisita com força o Folk Britânico em sua vertente mais expansiva, fazendo algo que eu gosto de chamar de “Folk para grandes espaços”, pois, assim como gente graúda do passado, especialmente, Tim Buckley e John Martyn, Walker faz música grandiosa disfarçada de intimista na maior parte do tempo. Seu estilo não passa pelo terreno do voz/violão, por mais refinada que possa ser sua técnica de “fingerpicking”, o modo como ataca as seis cordas de seu instrumento, fazendo-as soar mais grandiosas. Seu negócio é música que se conecta com o ambiente, com plateias, com céu aberto, apesar de caber bem em meditações solitárias em sábados cinzentos. Mesmo assim, suas composições não induzem ao chororô ou à contemplação, mas sim à atitude, à interatividade, à participação. Não há qualquer sinal de “bundamolice” por aqui.

Walker parece mais velho musicalmente que seus 25 anos de idade. Canta com voz de estrada, de gente que já passou por poucas e boas, fazendo de seu trabalho, do jeito que se apresenta, algo bem mais plausível e dolorido, apesar de não transparecer. Assim como [Van Morrison])https://monkeybuzz.com.br/artistas/van-morrison/) em seu clássico Astral Weeks, Walker se vale de uma formação jazzística para acompanhá-lo no estúdio, com gente tocando vibrafone, cello, percussão, baixo acústico, servindo de moldura para a interação entre guitarra e bateria, arcabouços perfeitos para o violão e voz do jovem desfilarem tranquilos. Se o primeiro trabalho trazia visões urbanas de cidade pequena do Meio Oeste americano, aqui Walker ainda as tem como base, mas arrisca algumas incursões na cidade grande (ele tem Chicago como ponto de partida) e não faz feio. Provas do caráter expansivo de suas composições surgem por todo o disco.

Quando não há a presença de joias atemporais como a faixa título ou a soberba Summer Dress, praticamente perfeitas, há detalhes tão pequenos de nós todos, como a introdução jazzística de Same Minds, na qual um baixo acústico fala com o espaço, apenas para ver sua voz ser suplantada pela chegada do violão, da massa sonora e daquela impressão de céu aberto, tudo ao mesmo tempo, com a voz de Walker rodopiando acima dos redemoinhos criados pela bateria, pela guitarra e por seu dedilhado de violão. Quando pensamos que o álbum irá por esse (belo) caminho, chega o iluminado instrumental Griffith Buck’s Blues, com acento country e nos leva para a beira de um rio qualquer numa tarde de sol, junto com Butch Cassidy e Sundance Kid. A impressão que iremos para uma incursão pelos caminhos verdejantes da chamada Heartland americana cai por terra na faixa seguinte, Love Can Be Cruel, diretamente da conexão John Martyn/Bert Jansch, cheia de alternativas e rodopios instrumentais, com direito a uma surpreendente guitarra apitando em seus instantes finais, ou seja, do verde do interior à urbe ensandecida que corre atrás do próprio rabo em questão de segundos.

On The Banks Of The Old Kishwaukee traz memórias de infância com instrumental delirante, abrindo passagem para Sweet Satisfaction, um afetuoso flerte com o dial de rádios FM setentistas, ávidas por artistas que conseguissem transportar a pureza melódica das influências Folk para o ideário Rock e, ainda assim, preservar alguma pureza. The High Road é logo perpassada por um cello que nos remete de cara a Five Leaves Left, primeiro álbum de Nick Drake, com a voz de Walker soando como se Drake, introvertido e depressivo, fosse agora um sujeito de bem com a vida. All Kinds Of You, com o título do trabalho anterior, aponta guitarras enigmáticas e vibe Jazz Folk para os letreiros de neon da cidade distante, com nosso herói vagando pelas ruas molhadas e frias. Hide In The Roses, solene e simples ao mesmo tempo, retorna à luz do dia seguinte, de manhã, em frente ao que se fez ou deixou de fazer na véspera.

Ryley Walker é um talento inegável, cumpriu com louvor o desafio do segundo disco, e segue firme em seu caminho. Suas influências são as melhores, suas composições têm personalidade, lembranças, presente e criatividade suficientes para credenciá-lo como uma estrela em ascenção. Vamos ficar de olhos e ouvidos abertos, o garoto acertou muito perto do alvo neste segundo trabalho.

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BOM PARA QUEM OUVE: John Martyn, Tim Buckley, Nick Drake
ARTISTA: Ryley Walker

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.