S. Carey – Hundred Acres

Com delicadeza, melancolia e afeto, músico revisita sons fora de moda para criar obra de grande beleza

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Ano: 2018
Selo: Jagjaguwar
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Indie Folk
Duração: 37'
Nota: 4.0

Teve uma época, lá na virada da última década, coisa de uns dez anos atrás, quando os sons no geral mais acústicos e dedicados a narrar a vida e suas situações de uma maneira mais Romântica – no sentido raiz da palavra, tanto na idealização, quanto na pegada popular, folclórica – eram os que muitos dos novos músicos apostavam em fazer. Pode chamar de tendência, pode chamar de moda, a questão é que ouvia-se muito o que é, ou pode vir a ser, denominado Folk e Indie Folk. Em 2018, depois de uma fase de grande saturação desses estilos, uma obra ser lançada com esses rótulos pode facilmente passar desapercebida, entendida por certa parcela do público como “datada” ou algo assim. Para chamar atenção, é preciso que o trabalho seja, digamos, especial.

É aí que entra a recomendação de Hundred Acres, mais um disco de Sean Carey (ou S. Carey), músico que ficou conhecido por tocar ao lado de Justin Vernon em seu Bon Iver (um expoente daquela época Folk para quem o termo é hoje insuficiente na descrição de seu estilo). Há algo nele que lembra bastante o som tão proliferado há uma década, das bases no violão a uma certa influência da guitarra Country aqui e ali, passando pelo vocal sussurrado e pelas figuras de linguagem que remetem à natureza. De certa forma, é um disco como aqueles de 2010, tendo como um diferencial temporal o volume sonoro, mais grave e reverberado como a grande maioria das produções de hoje.

E o que o torna “especial” são suas duas principais características: A grande qualidade percebida (tanto em termos de composição e arranjos, quanto na gravação e produção) e uma beleza de igual ou maior quantidade – algo bastante subjetivo, mas, quero acreditar, muito concordado por quem parar para ouvir os versos de Carey. Há um certo afeto melancólico e, ao mesmo tempo, caloroso que toma conta das músicas, uma sonoridade que parece abraçar os ouvidos e merecer aquelas comparações que – veja só – há muito tempo não fazíamos, como a da tal xícara de chá em um dia frio e chuvoso, por exemplo.

Não é o tipo de disco que fará alguém mudar de ideia, ou de gosto musical, em relação a termos como Singer-SongwriterHundred Acres é uma obra tímida e sensível, não um álbum-acontecimento que vem para redefinir o gênero ou seu público. Tem, porém, a cara de um trabalho que acompanhará por um bom tempo os seus ouvintes, do tipo que faz você voltar a ele de tempos em tempos para sentir justamente o tal do abraço, ou se transportar mentalmente para um cenário bucólico e sensível, ou mesmo para uma época quando ouvíamos mais esse tipo de música.

(Hundred Acres em uma faixa: Fool’s Gold)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.