Resenhas

Sammy Brue – I Am Nice

Cantor e compositor estreia com variações legítimas do Folk

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Ano: 2017
Selo: New West
# Faixas: 12
Estilos: Folk Rock, Folk Alternativo, Alt-Country
Duração: 40:52
Nota: 4.0
Produção: Ben Tanner, John Paul White

Estava ouvindo este primeiro álbum do cantor e compositor norte-americana Sammy Brue, quando fui pesquisar a sua idade. Com total espanto, constatei que ele só tem 17 anos, quando, na verdade, parece um tarimbado contador de histórias dessa entidade mítica que é a estrada da vida. Com voz calejada, sangue nos olhos e uma poesia pé no chão, o moço, nativo de Oregon, mas residente em Utah, dois estados americanos low profile, apresenta-se para quem estiver à procura de uma artesania musical acima da média, com ótimo trabalho vocal e inteligência para colocar o nariz para fora dos limites do Folk de voz/violão e mergulhar em águas tépidas do Country, do Rock e até do Punk. Assim é esse bom I Am Nice: diverso mas com bom senso.

Sammy não tem grandes pretensões ao longo da dúzia de canções que oferece ao ouvinte, pelo contrário. Seu maior trunfo é apresentar faixas que aliam força e originalidade com uma produção que sabe valorizar seus dotes. Neste caso, ponto para Ben Tanner e John Paul White, sujeitos com tarimba suficiente para usar a pouca idade do moço como algo absolutamente sem importância, evitando aquela admiração dos prodígios, que tanto os prejudica. Além disso, os trabalhos anteriores da dupla, seja com Civil Wars, seja com Alabama Shakes dá a ela uma visão particular das possibilidades do Folk Rock nesses nossos tempos. Na verdade, nada por aqui lembra uma adolescência quase vivida, como é a gente aos 17 anos. Brue tem cancha de veterano e o invólucro sonoro de suas composições é pra lá de convincente e apropriado.

Há detalhes belos, que só servem para ressaltar o pequeno grande disco que é I Am Nice: O arranjo de cordas em I Never Said é de uma beleza quase inocente, acaba por revestir a canção com um clima de pop cinquentista quase ancestral, colocando-a num lugar que talvez o próprio Sammy nunca tenha imaginado ir. A faixa de abertura, I Know, com belo trabalho de violões, é um hit radiofônico em potencial e tocaria das rádios do mundo se vivêssemos outros tempos. I’m Not Your Man é outra lindeza com andamento rápido, letra surpreendente e um espírito “on the road”, que poderia ser de alguma velha canção de Glen Campbell, se isso fosse possível. Novamente um belo arranjo de cordas reveste e dá profundidade às coisas por aqui.

Outras surpresas: o clima de bailão que tem Jealous, com guitarras cheias de efeito e órgãos noturnos, fazendo dancinhas em volta da fogueira, convive com o sangue nos olhos de Covered In Blood, que frequenta as fronteiras entre o Punk e o Country, com uma verdade de quem sempre cantou essas coisas. Em seguida, o ar campestre e plácido de I Don’t Want You To Leave exibe esse contraste de tons e a variedade que a palheta de cores que o jovem tem. Mesmo assim, não há como não sorrir com a excelência springsteeniana que Control Freak, a melhor faixa desse disco exibe. É um caso de amor entre melodia, arranjos e guitarras, com a voz de Sammy amarrando tudo e fugindo de casa para dar notícias só na próxima cidade, na base do “você não me pega, você nem chega a me ver”. Uma lindeza.

Um disco despretensioso que é um biscoito recheado de boa música, verdade e climas legais. Tudo funciona, não há faixa ruim e você deve ouvir imediatamente tudo o que está aqui. Garantimos a satisfação. Depois nos diga se gostou.

(I Am Nice em uma música: Control Freak)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.