Resenhas

Saskia – Pq

Em sua estreia, a artista crava a sua singularidade frente ao cenário do Hip Hop brasileiro ao apostar em um caminho estético experimental e caótico

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Ano: 2019
Selo: QTV
# Faixas: 11
Estilos: Hip Hop Alternativo. Experimental
Duração: 39'
Produção: Renato Godoy e Matheus Miranda

Na semana passada, em uma série de tuítes (agora, já deletados), o jornalista norte-americano Andrew Nosnitsky discutia o achatamento estético do Hip Hop que teria acontecido no Bandcamp. O argumento sustentado por ele era o de que uma vez que a plataforma não tem qualquer medida de popularidade e o usuário é levado a alguns álbuns somente via curadoria do próprio site, a sonoridade experimental e “barulhenta” de artistas como JPEGMAFIA e clipping. teria acabado por guiar outros rappers que, em vista do seu sucesso, os imitam sem o mesmo refinamento estético.

Na minha primeira audição de Pq, álbum de estreia da artista gaúcha Saskia que foi lançado no mês passado pela QTV, lembrei dos comentários de Nosnitsky. Muitas das características criticadas por ele estão ali: trata-se de um disco caótico em estrutura, que pouco segue a fórmula “verso-refrão-verso”, “barulhento” e, em boa parte, construído por sonoridades sintéticas. No entanto, depois de ouvir o LP mais algumas vezes, comecei a perceber as particularidades de Pq que o levam para além dessa leitura superficial.

Primeiramente, apesar de mergulhar em uma estética que remete ao Hip Hop Experimental dos Estados Unidos, Saskia evidentemente costura referências brasileiras nesse universo. Isso fica claro logo na primeira faixa do registro. “Pq” introduz a ideia que deu título ao álbum com um samba quebrado e inconstante com samples de metais e 808s marcados. Ainda em outros momentos, a instrumentação acústica toma a dianteira em meio às sonoridades majoritariamente sintéticas do disco. Um bom exemplo é o solo do baterista norueguês (já frequentador da cena experimental brasileira) Paal Nilssen-Love em “Fuk U”. Isso sem contar as circunstâncias em que a própria voz de Saskia faz as vezes de instrumento (como em “Na Cara”).

Pq também surpreende quando as batidas eletrônicas se intensificam e circulam em torno de uma referência Drum’n’Bass como em “27 Sabiás Fala Brasilês” e “Foda”. Quem já aprecia a linha mais laboratorial do Hip Hop brasileiro (capitaneada por artistas como Linn da Quebrada e Edgar – que, inclusive, participa da faixa “Tô Duvidando”), sem dúvida, vai gostar da investida de Saskia. Os 39 minutos de música idealizada pela artista parecem condensar uma complexidade que demanda repetidas audições para a absorção dos conteúdos ali inseridos. Por baixo de toda a instrumentação repleta de informação, a voz e a personalidade de Saskia vão se revelando cada vez mais nesse processo. Sua energia varia de inflexão com uma facilidade digna de Nicki Minaj: é direta e crua. Como quem não pode esperar para dividir o que tem a dizer. Concisão que passa longe do prolixo ou do verborrágico.

Isso posto, Pq é uma abstração feroz que conta com um apelo Pop que perfuma essas ousadias. Assim, trata-se de um projeto ambicioso de uma nova artista que parece ter muito a mostrar, uma vez que ela é uma das poucas a investir nesse caminho estético no Brasil. Como disco de estreia, é encantador e nos deixa ansiosos para assistir aos seus próximos passos.

(Pq em uma música: “Foda”)

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