Resenhas

Say Lou Lou – Lucid Dreaming

Estreia da dupla acena para o Pop do passado, mas abraça a modernidade

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Ano: 2015
Selo: Membran
# Faixas: 11
Estilos: Dreampop, Pop Alternativo, Synthpop
Duração: 45:53
Nota: 3.5
Produção: Lindstrom

Elektra e Miranda Kilbey compõem o duo Say Lou Lou. Irmãs gêmeas e filhas do ex-vocalista e cérebro da banda The Church, Steve Kilbey, as meninas passaram a infância entre a casa do pai em Sidney, Austrália, e a da mãe, Karin Jansson, em Estocolmo, Suécia. Absorveram todas as influências culturais possíveis, além de crescerem e se tornarem duas belas moçoilas. A imagem padrão Vogue/Marie Claire e a opção pelas sonoridades advindas da encruzilhada eletrônica/dançante/moderníssima, inclusive, chega a suscitar algum tipo de desconfiança. Seria Say Lou Lou um projeto de qualidade duvidosa, desses que ostentam mulheres gatas, mas que, na verdade, são mero veículo de exposição para produtores/DJ’s mequetrefes? Ou apenas as duas vocalistas e suas ideias interessantes? Felizmente, podemos cravar a segunda opção.

Desde o início das atividades, em 2013, quando publicaram sua primeira canção, Maybe You, no Soundcloud, até figurar na lista Sounds Of 2014 da BBC, e lançar Lucid Dreaming, tudo foi muito rápido na carreira da dupla. A parceria inicial com o produtor norueguês Lindstrom confirma que, em termos musicais, há muito mais influência escandinava que australiana. A sonoridade perpetrada pela dupla dá rodopios lentos em torno do próprio eixo e mostra-se confeccionada com precisão para as pistas de dança menos evidentes, mais selecionadas. Não há, no entanto, descuido com os elementos Pop, presentes em bom número ao longo das onze faixas do álbum, inclusive com direito a uma balada matadora, estilo Madonna anos 1990, que é Wilder Than The Wind, confirmando que uma banda ou artista não pode ser considerada seriamente se não for capaz de entregar uma bela canção lenta e romântica. As meninas conseguiram. Wilder… é, simplesmente, a melhor canção por aqui.

Os climas do disco são bem diversos. A abertura com Everything We Touch alia vocais e feeling dos grupos femininos dos anos 1960 – em sua versão mais contemplativa – com instrumental em câmera lenta e teclados estratosféricos, com destaque para a boa performance vocal de Miranda e Elektra, como se fossem uma só. Glitter já aponta mais para a dança no sentido Synthpop quarto-escuro-sensual padrão 1980, mas com a interferência de Lindstrom na aclimatação gelada necessária. O Techno mais espontâneo e Pop surge na sensacional Games For Girls, que novamente lembra Madonna, mas em sua fase Like A Virgin, conjurando influências Funk branquelas e Pop de medula óssea. Julian, o primeiro sucesso, que muita gente achou ser em homenagem ao cantor Julian Casablancas, é acrílica e derramada, contida e épica, tudo ao mesmo tempo. Angels segue no mesmo caminho com o verso de abertura ilustrando “We can talk about sex, we can talk about love, but all I wanna know is what you thinking now”, sexy e lenta, elegante pacas.

Cordas dramáticas introduzem outra balada, Peppermint, sintonizada com tonalidades mais noturnas, ainda que caia bem em versos como Watch the sunset on your face, mostrando que as moças são românticas e detém um mínimo de criatividade para não resvalar no poço convidativo da banalidade fácil. Beloved chega atmosférica, Hard For A Man é pop oitentista da melhor qualidade, Nothing But A Heartbeat tem débito enorme com momentos mais lentos e sérios de gente como Abba e com o lado tristonho e cinzento de The Cardigans, apesar de ter uma grandiosidade própria, traduzida na visão “maior que a vida” do arranjo. O fecho com Skylight segue o mesmo caminho, com batidas eletrônicas precisas e decalcadas do melhor Pop dos anos 1980.

Say Lou Lou tem bom gosto, boas referências e uma espécie discreta e marcante de carisma. As meninas parecem deter conhecimento, espontaneidade e bom gosto em boas doses, suficiente para conquistar um público mais exigente em termos de buscar artistas que vão e voltam aos anos 1980 e batem no peito clamando pelo ineditismo. Não bastasse tudo, Elektra e Miranda ainda são capazes de dar um toque pessoal na coisa toda. Bem acima da média.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.