Resenhas

Serafina Steer – The Mind Is A Trap

Disco marca o retorno da artista à harpa, misturando com elementos da música Eletrônica e Ambient Music

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Ano: 2019
Selo: Independente
# Faixas: 14
Estilos: Avant-Garde, Eletrônica, Experimental
Duração: 37'
Produção: Serafina Steer

A compositora e instrumentista Serafina Steer percorreu um longo caminho até chegar aqui. Seu contato com a música, principalmente a música clássica, começou desde cedo ainda na escola quando, aos 14 anos, foi introduzida ao peculiar instrumento que é a harpa. A partir de então, começou a explorar as possibilidades que este instrumento oferecia, ao mesmo tempo que descobria novos campos musicais. Em 2007, lançou seu primeiro disco Cheap Demo Bad Science, um sensível trabalho no qual Serafina começava a transparecer seu particular interesse pela música experimental, culminando em um tocante cover de “By This River” de Brian Eno. 

Assim, ao passar dos anos, as óbvias comparações com Joanna Newsom (principalmente por também ser uma mulher harpista) já não eram mais capazes de expressar a singularidade de seu trabalho, fazendo transparecer referências menos conhecidas como Tōru Takemitsu, compositor japonês pós-moderno e Áine O’Dwyer harpista irlandesa. Recentemente, Serafina deixou a harpa de lado para se dedicar à diferentes projetos, como a banda de Post-Punk Bas Jan e um trabalho experimental no álbum Jarv.Is,  trabalho colaborativo com o frontman do Pulp, Jarvis Cocker.

The Mind Is A Trap é o primeiro trabalho solo de Serafina desde seu enigmático The Moths Are Real, de 2013. É com ele que a artista marca o seu retorno ao instrumento que mais a acompanhou durante sua carreira. O registro em questão, para além desse comeback, também funciona como um compilado das experiências que essa jornada longe da harpa trouxe. Assim, os sintetizadores de LPs passados, o contato com a Ambient Music e até mesmo a crueza do Post-Punk de Bas Jan encontram espaço para confluir harmoniosamente em um fluxo constante e suave administrado pela musicista. 

O título (em tradução livre para o português: “A mente é uma armadilha”) veio de uma conversa que ela teve com seu pai. Nos primeiros segundos de audição, o nome já faz todo sentido. Não que o disco funcione de uma forma hostil e que possa causar danos, mas as composições de Serafina por vezes nos enganam. Quando menos esperamos, somos sugados para dentro deste rico, complexo e fragmentado mundo sonoro. Um dos primeiros avisos de que precisamos ficar atentos ao hipnotizante manejo do LP é notado logo nos primeiros sintetizadores oscilantes de “Whatsmystone”, cuja incessante repetição pode causar um ingênuo sentimento de tédio, mas que logo se transforma em transe. Estado este ideal para que o álbum ganhe sentido dentro de quem o ouve. Ao sermos fisgados pela habilidade de Serafina é que ela tem a liberdade de nos conduzir para onde bem entender. 

Como mencionado em entrevista, a musicista diz que este registro pode não oferecer respostas diretas e simples ou uma saída para um labirinto, mas certamente nos fornecerá perguntas fascinantes. Nesse estado de perpétua curiosidade, temos exemplos de composições que colocam nossa mente aprisionada para funcionar. O apelo Lo-fi de “Provides Common Ground” se assemelha aos primeiros discos de CocoRosie, mas ganha uma aura mais sensível pelos vocais quentes de Serafina. 

Por outro lado, “Auto” une eternos loops de piano e harpa para sustentar um poema de Sally O’Reilly sobre nossa autopercepção, indo de um extremo ao outro em curtos intervalos de tempo (Eu me coloquei para baixo/ Eu me coloquei para cima/ Eu me desapontei/ Eu me surpreendi). “Say What You See” é uma montanha russa de emoções que demonstra a habilidade de Serafina em contar uma história sem pronunciar nenhuma palavra, apenas pela intenção dos instrumentos que toca. Por fim, “This Is My Emotion” encerra o trabalho em um tipo de Minimal Techno fantasmagórico que aos poucos vai nos libertando da armadilha, nos deixando com uma espécie de sentimento ambíguo por estarmos apaixonados pela prisão que atravessamos.

Serafina Steer junto todas as referências que gosta e além de produtora, multi instrumentista e compositora, revela-se como manipuladora de diferentes forças que emergem na escuta de The Mind Is A Trap. É um trabalho curioso ao mesmo tempo que é corajoso na profundidade que cria. Uma profundidade absolutamente misteriosa e prazerosa de desvendar.

(The Mind Is A Trap em uma faixa: “Say What You See”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.