Resenhas

Sergio Mendes – In The Key Of Joy

Músico veterano alia virtuosismo e celebração em disco cheio de participações especiais

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Ano: 2020
Selo: Concord Records
# Faixas: 12
Estilos: Samba Jazz, Bossa Nova
Duração: 44'
Produção: Sérgio Mendes

Entre os talentosos instrumentistas da Bossa Nova surgidos pelas décadas de 1960 e 1970, Sergio Mendes se tornou, com o passar do tempo, aquele, digamos, mais “internacional” – ainda que tenha passado por um período discreto nos anos 1980. Menos experimental do que João Donato e Marcos Valle – mas músico tão prendado quanto –, o carioca de Niterói mudou-se para os Estados Unidos em 1962 e, desde então, realizou intensas fusões entre o ritmo carioca e seja lá mais o que entrasse em seu caldeirão. Sempre escorado, todavia, em uma atmosfera Pop e festiva. As parcerias estreladas, ao longo dos 79 anos de idade e das mais de cinco décadas de carreira, vão de Stevie Wonder a Natalie Cole, Cannonball Adderley a Justin Timberlake. Em 2006, o disco Timeless reuniu gente como Erykah Badu e John Legend, além de render o hit “Mas Que Nada”, uma dançante releitura da canção de Jorge Ben, que já havia sido regravada e eternizada por Mendes em 1966.

In The Key Of Joy, lançado no fim de fevereiro (e com versão deluxe ampliada), ratifica sua habilidade de convidar todo mundo para a festa, ao mesmo tempo em que a marca da Bossa Nova – e suas ramificações – segue indelével. “Sabor Do Rio”, faixa de abertura, coloca Common, a personificação do Rapper de Mensagem desde meados dos anos 1990, para rimar em um samba. O MC de Chicago, escolhido a dedo para a faixa, chega em clima de roda de freestyle sob batucadas, cavacos, coros, súbitos metais e a intimidade de sempre de Mendes com o piano. A musicalidade de Chicago, inclusive, parece ter influenciado a faixa-título, uma enérgica produção com certa influência de Gospel, aos moldes das fusões de Kanye West e Chance The Rapper. Buddy, rapper que começou a ganhar notoriedade de uns dois anos para cá – inclusive, com bela apresentação no Tiny Desk Concert –, se sintoniza à proposta acelerada com flow envolvente. Lembrando o entusiasmo das melhores trilhas de animações da Disney, é a canção perfeita para seu título, “na chave da alegria”.

Com a participação da dupla colombiana Cali Y Dandee, “La Noche Entere” é o flerte mais intenso com sons contemporâneos do disco. Mas, mesmo mergulhada no Reggaeton, a faixa ganha um domínio orgânico em sua produção, com baixo marcante e harmonia complexa, transições ousadas, livres. É algo como “sim, é Reggaeton, mas dá só uma olhada nesse arranjo”. O resultado é uma explosão latina que pode ser tranquilamente apreciada tanto por um ouvido exigente meio mala, quanto por alguém que quer dança e descompromisso na pista.

Esse é o grande lance. Sergio Mendes ainda parece capaz de compor um tema de abertura de Copa do Mundo por dia e defende uma mescla musical sem amarras – do Jazz ao Black Eyed Peas. Mas a intenção não é se lambuzar de Pop ou encarnar uma suposta “World Music”. É livre, sem alvo. Cada passo pelo Pop vem acompanhado de uma desprendida quebra, uma complexidade e o caldo da mistura (fácil de ser degustada) é sempre riquíssimo. E ao jogar mais em casa, como em “Muganga”, que traz a voz de Gracinha Leporace, sua esposa e parceira musical há mais de 50 anos, o resultado é primoroso.

O Brasil também puxa geral para a dança em “Samba In Heaven”, algo entre o Axé, a guitarrada paraense e o Euro Disco, com Sugar Joans, participante do The Voice, dando canja. A festa fica 100% brasileira na instrumental “Romance In Copacabana”, que, apesar da intro jazzística quase nos enganar, não ficaria nada mal com as vozes de Zeca Pagodinho ou Martinho da Vila. “This Is It (É isso)” traz a lenda Hermeto Paschoal abrilhantando um arranjo com influências de Baião e atmosfera tribal, além de vocalização contagiante novamente de Gracinha. A doce voz guia também o lindo fechamento, “Tangara”, balbuciando sons e melismas que remetem às melodias do Clube da Esquina.

É curioso como, no geral, In The Key Of Joy passou despercebido por boa parte da imprensa brasileira, enquanto foi motivo de entrevista em veículos internacionais como a Billboard e o NPR Music. Outro sintoma da discrepância entre o reconhecimento aqui e lá fora é a diferença de tamanho entre as páginas em português e inglês do músico na Wikipedia. Por outro lado, ainda que distante da terra natal há um bom tempo e não tão badalado por aqui, Sergio Mendes segue levando o Brasil por onde quer que ele passe – e continua convidando os mais diversos talentos para a festa.

(In The Key Of Joy em uma faixa: “Muganga”)

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