Resenhas

serpentwithfeet – DEACON

Segundo disco do produtor e compositor americano exalta elementos do Gospel e do R&B e os amarra com personalidade e poesia envolvente

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Ano: 2021
Selo: Secretly Canadian
# Faixas: 11
Estilos: R&B, Experimental, Ambient
Duração: 29'
Produção: serpentwithfeet, Batu, Brandon Juhans, Lil Silva, Sampha, Take a Daytrip e Justus West

Uma das coisas mais interessantes de se perceber no decorrer da discografia de um artista é como existe um amadurecimento de ideias e temas. Não que isso implique que os discos mais novos sejam melhores do que os antigos, mas, certas vezes, parece que a trama de conceitos e sentimentos envolvidos vai se tornando cada vez mais complexa. Afinal, discos são, muitas vezes, produtos de catarses e de um intenso processo de reflexão, e é apenas natural que envelhecer traga novas e complexas questões para serem discutidas. Mas para o compositor e produtor norte-americano Serpent o processo que sua obra lhe traz parece contrariar esta suposta ordem “natural” do processo criativo. Aqui, não há um aumento do número de experiências presentes no registro, mas uma remoção daquilo que já é desnecessário. Serpent trabalha com a ideia de limpar os excessos, para que sua mensagem fique cada vez mais clara e precisa.

Esse processo de remover partes de si já começa com o abandono de seu nome original de batismo, optando por ser chamado de Serpent – nome que se relaciona com seu principal projeto musical, serpentwithfeet. Mas, mesmo antes disso, esse ato de podar o desnecessário e acentuar o fundamental o acompanha desde sua infância. Criado por pais em um ambiente fervorosamente cristão, Serpent estava imerso em um ambiente hostil à sua homossexualidade. Ao invés de apagar tudo o que dizia respeito a este momento de sua vida, Serpent opta por selecionar de tudo isso uma parte que lhe serve como instrumento para expressar seus anseios e lutas: a música Gospel. Em entrevista para o The Guardian, ele conta que sentia muita paixão naqueles versos e corais da igreja. O olhar minucioso de Serpent fica evidente. Ele não pode se livrar de toda a história, pois ela o forma. Mas também não pode levar consigo tudo, pois isso o impede de seguir. Esta é a história por trás de seu novo disco, Deacon

A referência do título a um cargo eclesiástico já é um ponto de partida para entender como a sonoridade deste novo momento se constrói. Tal qual a música Gospel, a melodia tem um papel fundamental na estética de Serpent, pois ela conduz o ouvinte durante toda a narrativa. É ela que nos orienta e pinta os humores que regem o disco. Além disso, Serpent retorna com sua voz frágil, mas que se impõe de maneira categórica para o ouvinte. Uma sensação que parece nos dizer “não sinta pena de mim, me escute”. Entretanto, o Gospel ocupa uma posição secundária nesse registro e esta é a principal mudança em relação a seus discos anteriores. O aspecto R&B é muito mais privilegiado, selecionando referências de uma safra de cantoras dos anos 1990, como Janet Jackson e Brandy. Batidas e timbres específicos do gênero nos transportam diretamente para a década referida, proporcionando uma experiência nostálgica ao mesmo tempo que protagoniza, de forma autêntica, a vida de Serpent.

As escolhas de DEACON têm direta relação com a mudança de temas e perspectivas em relação a outros registros. Enquanto blisters (2016) e soil (2018) focaram em temas como decepções e términos amorosos, este novo trabalho opta por pensar as coisas a partir destas experiências prévias. Assim, Serpent faz um trabalho de, segundo ele, exaltar o romance entre homens negros, assim como a felicidade de se poder viver estes romances. Ao transitar sobre este assunto, ele passa por temas políticos, como as supostas permissões que o governo ou pessoas brancas precisariam dar aos negros homossexuais. Tudo isso colocado sob uma mescla entre R&B e Gospel – movimentos que mostraram (e, em certa medida, ainda mostram) hostilidades para com a comunidade gay.

Os violões e corais de “Hyacinth” abrem o disco, como um ritual sagrado que coloca Serpent em seu centro, mas também como a figura de liderança religiosa que irá nos guiar por toda a jornada. “Malik” imprime toda a malemolência do R&B e tambémexalta a glória da música Gospel – em uma semelhança assombrosa com Frank Ocean. “Sailor’s Superstition” é um híbrido de uma batida Pop, mas com uma progressão de acordes tensos e libertadores, características de músicas de louvor. “Wood Boy” evoca um aspecto mais experimental e desconstruído nas batidas quebrada e ainda expõe uma sensualidade nas letras em tons espirituais – sem medo de se sentir profano. Por fim, temos “Fellowship”, um Ambient Pop que nos envolve com texturas macias, mostrando toda a paixão de Serpent.

Mais uma vez, serpentwithfeet coloca no mundo um registro sensível e, ao mesmo tempo, arrebatador. A dinâmica de remover determinadas temáticas de sua vida para compor uma nova narrativa não vem como um esquecimento de sua história. Pelo contrário: é continuar seguindo em frente. Serpent retira certos fardos desnecessários para poder focar em pesos mais atuais e urgentes – sem desconsiderar a importância daqueles fatos. Uma lição sobre amadurecimento, acompanhada de musicalidade autêntica.

(DEACON em uma faixa: “Fellowship”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.