Resenhas

Sevdaliza – Shabrang

Em seu segundo disco, artista irani-holandesa mergulha ainda mais fundo em auto investigação e usa, com maestria, o minimalismo a serviço da emoção

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Ano: 2020
Selo: Twisted Elegance
# Faixas: 15
Estilos: Art Pop, Trip Hop, Experimental
Duração: 62'
Produção: Sevdaliza e Mucky

A obra de Sevdaliza não estabelece associações e referências simples. Um ouvinte de primeira viagem pode até supor algumas sonoridades a partir dos nomes de gêneros com os quais tentam defini-la, como Art Pop e o genérico Experimental. Mas sua arte vai bem além de rótulos e essa tentativa de delimitação não abarca a complexidade da artista irani-holandesa – cuja maior arma é a habilidade no manejo emocional. Cada canção é executada com toda a força e oxigênio provenientes de seus pulmões e, assim, cada qual se torna um expurgo intenso, daqueles difíceis de não se deixar afetar.

Para isso, ela procura compreender em cada elemento sonoro escolhido uma linguagem em potencial para que sua mensagem (repleta de sentimentos) seja entregue sem perdas. Sevdaliza é mestra na linguagem de sua própria emoção e, por falar de um lugar tão conhecido e autenticamente seu, é que temos a impressão de que ela não é uma mera guia nos mostrando o seu mundo: ela, grandiosa e colossal, é seu próprio mundo. Isso fica bem claro em seu disco de estreia, Ison (2017), um híbrido de R&B com elementos da música e mitologia iraniana que nos revela partes do rico universo de Sevdaliza. Entretanto, seu novo registro parece levar as coisas a um novo patamar, potencializando um discurso já forte em uma obra monumental.

O título Shabrang tem inspiração em um poema iraniano escrito pelo célebre poeta Ferdowsi. Shabrang é o cavalo negro do cavaleiro Siyâvash, que simboliza a inocência depois de passar por um teste de fogo intenso. A escolha de um personagem que passa por desafios brutos não é acidental e, quanto mais nos aprofundamos no registo, mais percebemos as semelhanças entre a figura e Sevdaliza. Sempre colocando suas vivências em primeiro lugar, o propósito de Shabrang é justamente contar sua experiência de uma forma menos narrativa e mais emotiva. Ou seja, não interessa quais são os personagens e a cadência precisa dos fatos: Sevdaliza procura entregar uma experiência atravessada pela emoção. As 15 composições que formam o disco são como o cavalo da lenda, que suporta o peso dos testes de fogo pelos quais Sevdaliza atravessou. Nós, enquanto ouvintes, podemos apenas nos levar enquanto sentimos na pele as emoções fortes do disco.

Talvez por optar por esta narrativa emocional é que a sonoridade do disco se mostre tão rica, expressando a complexidade do espectro sob o qual Sevdaliza está submersa. Há elementos de R&B combinados a vocais melodiosos e quase líricos, bem como uma mistura ambiciosa de elementos da música iranianq e técnicas de edição de som extremas. Se um recurso é particularmente útil a artista, ela o explora incessantemente, colhendo tudo o que pode daquela partícula sonora. Essa característica quase “garimpeira” também entra em sincronia com a forma como ela própria encara seu processo criativo – afinal, entregar uma obra tão emocionante requer uma investigação profunda e minuciosa de suas vivências. Assim, tudo que diz respeito a si própria, deve ser vivido com intensidade e este talvez seja o grande tema do disco: a intensidade do viver.

Nesta intensidade, se constrói uma das maiores ironias do disco – o fato de sermos atravessados por tamanha carga sentimental a partir de uma sonoridade que é, de forma geral, minimalista. Sevdaliza não procura tocar o ouvinte pela quantidade de elementos em seus arranjos, mas pela qualidade de cada melodia. Somos surpreendidos por canções compostas apenas para piano e voz, evocando emoções fortes a partir de melodias relativamente simples, mas cantadas com tanto vigor, que nos quebram por inteiro. É na precisão da escolha de cada instrumento que Sevdaliza nos mostra como sua obra não deve ser encarada apenas com uma série de composições reunidas sob a forma de disco. Mas como um organismo vivo que sente e se comporta de maneira autônoma. Prever seus caminhos é uma tarefa inútil.

“Joanna” abre o disco colocando um dos contrastes preferidos de Sevdaliza: as escalas tonais árabes juntamente com efeitos de voz contemporâneos – apesar da distância temporal separando-os, funcionam de forma extremamente harmônica. “Habibi”, um dos singles lançados anteriormente, é um dos melhores exemplos de como o minimalismo está a serviço da carga emocional, com pianos e vozes emocionantes e, tendo como auge, um choroso violino ao fundo. “Wallflower” parte para uma abordagem mais futurista, mas ao mesmo tempo barroca, algo entre a ambição de Björk e a emoção de Fiona Apple. “Eden” se aproxima mais do contemporâneo ao compor batidas influenciadas pelo Trap, apesar do coro de vozes nos levarem para outros momentos da história de Sevdaliza. “Comet” encerra o trabalho em uma montanha-russa emocional, repleta de intervenções e melodias disruptivas. Sevdaliza não poupa esforços até o último segundo do disco.

Dizer que Shabrang é emocionante seria um pleonasmo simples demais para contemplar a obra de Sevdaliza. A partir de uma construção sonora complexa, ironicamente feita sob bases minimalistas, a artista conta suas histórias e vivências de maneira intensa e marcante. Em entrevistas, ela comentou que o disco funcionaria como uma espécie de carta para si mesma, uma bíblia própria. Esta última metáfora parece captar bem a essência do disco, pois tanto para o livro sagrado quanto para o disco as mensagens e parábolas por trás das narrativas são o que importa. Por mais que Sevdaliza recorra a diferentes elementos para expressar sua autenticidade, o que é construído em Shabrang é muito mais do que a união de suas referências. É a sua própria e fantástica mitologia.

(Shabrang em uma faixa: “Wallflower”)

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ARTISTA: Sevdaliza

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.