Resenhas

Shabazz Palaces – Quazarz Vs. The Jealous Machines

Disco alia discurso afiado com monotonia musical

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Ano: 2017
Selo: Sub Pop
# Faixas: 12
Estilos: Hip Hop, Hip Hop Alternativo, Eletrônica
Duração: 42:24
Nota: 3.0
Produção: The Palaceer Lazaro

Shabazz Palaces é o primeiro artista de Rap – acho que o único – a fazer parte do elenco da prestigiosa gravadora Sub Pop. Formado por Ishmael Butler e Tendai Maraire, o duo é uma espécie de encontro entre tendências contemporâneas do estilo e temas maluquetes com certo viés consciente. Devo confessar de antemão que não gosto do que o Rap se transformou no período compreendido entre meados dos anos 1990 e a contemporaneidade. Acho que o estilo perdeu em essência, abriu mão de sua mais interessante característica, a sampleagem reavaliadora e ressignificante de canções e discursos, tornando-se um refúgio acolhedor para o mainstream mais pobre fabricar artistas sem conteúdo. Claro, há exceções honrosas no estilo, mas avalio o Rap – em sua maioria – como mais pobre hoje do que há 20 e poucos anos.

Dito isso, este terceiro álbum de Shabazz, Quazarz Vs. The Jealous Machines segue uma tradição interessante na música negra estadunidense mais recente: a de gravar álbuns com temáticas futuristas/espaciais. O enredo aqui é a reação da humanidade à chegada de uma tal coletividade de artistas e pensadores chamada Quazarz, que ajudará numa reconquista da individualidade e da plenitude roubada por umas tais Jealous Machines. É clara a analogia entre o combate que se trava no mundo, no qual as pessoas procuram mostrar que o sistema econômico vigente irá nos matar a todos, mas antes nos condenará a uma vida de pobreza, desigualdade e subaproveitamento, na qual perderemos em vários setores da nossa própria existência. No comando deste enredo está Butler, que atende pelo nome de The Palaceer Lazaro hoje em dia, mas que já teve um passado glorioso como Butterfly, à frente de uma das mais criativas formações que o Rap já viu, a Digable Planets.

Desta forma, este terceiro álbum de Shabazz Palaces carrega no conteúdo político sob esta alegoria espacial-consciente mas reduz o poderio musical ao mero papel de coajuvante, investindo nesta nova variável do Hip Hop, o Trap, na qual o estilo passa por uma sessão de sauna, perdendo gordura necessária para ser interessante. Tudo passa a ser mais eletrônico, minimalista e esquelético, algo que desagrada a este crítico musical. No caso de Butler e sua capacidade de fundir Jazz com Rap, o lamento é ainda maior. As canções se tornam terrivelmente parecidas, com um blá-blá-blá infinito, sem o contraponto melódico mínimo necessário.

Mesmo assim, com este desequilíbrio incômodo, há dois momentos que valem o álbum: Self-Made Follownaire tem uma cartilagem sonora que conduz o flow de Butler e Maraire com elegância e tradição, mostrando que os dois optaram por este encolhimento musical para privilegiar seu discurso. Em condições normais de temperatura e pressão, teriam condição para igualar os setores. Atlaantis também é legal, mais próxima de um subterrâneo (ou submarino) melódico apenas pela ambiência fornecida pelos teclados que fica atrás das vozes. E o momento mais interessante: a sacaneada de Love In The Time Of Kanye, que vai pelos caminhos da psicodelia, cujo título se explica.

No fim das contas, o álbum atinge seu público e tudo segue. Feitas as ressalvas desta resenha, o fã do estilo ouvirá e fará seu próprio juízo. Descontados os problemas com a música, o discurso se sustenta e é pra lá de necessário nestes tempos.

(Quazarz vs. The Jealous Machines em uma música: Self-Made Follownaire).

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.