Resenhas

Shabazz Palaces – The Don of Diamond Dreams

Mais “pé no chão” e humano, quinto disco traz dupla abraçando sons do Hip Hop contemporâneo, mas sem deixar de lado as influências de sempre

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Ano: 2019
Selo: Sub Pop
# Faixas: 10
Estilos: Rap Alternativo
Duração: 42'
Produção: Ishmael Butler

Quando o disco Black Up (2011) chegou à cena, a dupla formada pelo rapper e produtor Ishmael Butler e o multi-instrumentista Tendai “Baba” Maraire experimentava e criava sua identidade a partir de referências como Sun Ra, Miles Davis, Alice Coltrane, Pharoah Sanders e mais um panteão de pioneiros músicos afro-futuristas. Havia, também, uma obsessão temática com o mundo moderno e seus desdobramentos digitais, marcado por trabalhos em colaboração com o artista visual Khalil Joseph. A fusão fez com que o trampo da dupla fosse catapultado, angariando fãs para além do público tradicional do Rap, em movimento semelhante ao que hoje acontece com nomes como JPEGMafia. Nove anos e três discos depois, o Shabazz Palaces retorna com sua viagem espacial, mas, dessa vez, a nave de Ishmael e Baba pegou um caminho mais próximo de casa, em diversos sentidos.

A começar: The Don of the Diamond Dreams (2020) foi completamente nutrido e gerado no home studio de Maraire. Essa comodidade certamente é tempero fundamental na sonoridade do Shabazz Palaces, uma vez que permite que ideias surgidas espontaneamente sejam gravadas num instante. Fator que certamente garante a preservação do instinto criativo, ao eliminar os ruídos entre epifanias e a gravação em estúdio tradicional.

No quinto disco, a influência do P-Funk setentista permanece como de costume, mas Ishmael olha também para dentro de casa. Ele, que nos anos 1990 foi parte de uma frente da vanguarda do Hip Hop, o memorável Digable Planets, é pai de Lil Tracy, artista de 24 anos do chamado Emo Trap – subgênero cujo representante maior é Lil Peep, que morreu tragicamente em 2017, aos 21 anos, vítima de uma overdose.

Ao contrário de muitos MCs de sua geração, Ishmael não torce o nariz frente à face mais Pop do Rap. Pelo contrário. No novo disco, a influência do Trap se faz mais presente do que nunca. Já na segunda faixa, “Ad Venture” – a primeira música do disco após a intro –, Ishmael usa estruturas de composição e dobras com reforço do que foi dito, no melhor estilo 21 Savage: “Gold stitches in my jeans (Check it out, its richness)/ Its richness, what you mean?/ The moonlight is my guide (All around)/ Around the turns of life”. Já em “We”, com refrão tranquilamente imaginável na voz de Schoolboy Q (remetendo ao hit “Floating”), o rapper tira da caixa linhas que vieram diretamente da fábrica Lil Wayne de punchlines, como “All my niggas nerd, they speak in Tec” – jogo de palavras com tecnologia e a arma TEC-9. Ou então “All type girls love me like I’m Fenty”, em um braggadocio no qual ele se diz tão querido pelas mulheres quanto os lingeries da marca Fenty, de Rihanna. Aspectos que demonstram o ímpeto em atingir um maior público e conseguir dialogar com as contemporaneidades do Hip Hop.

A dobradinha que desabrocha a linguagem do projeto vem no single “Chocolate Souffle” e “Bad Bitch Walking”, intercaladas pelos 20 segundos do interlúdio “Portal South: Micah”. A batida funkeada e galáctica da primeira dá esse tom de “beats que o Andre 3000 mataria”. Entre salves para Prince e a desconstrução do padrão 16 linhas-refrão, o rapper faz afirmações sobre diversos assuntos diferentes e aparentemente desconexos, algo como um mestre Yoda gangsta (“You are a scroller, I’m a explorer”). Após a entrada no portal sul através da sexta faixa, temos a balada suave de “Bad Bitch Walking”, com a única participação de outro rimador no projeto, no caso, outra rimadora. Stas THEE Boss entrega suas 16 barras com qualidade e inteligência, definindo a bad bitch como “B-A-double-D-I-E-beezy/ Can’t tell you nothing like a Yeezy/ Thugs motivate her like Young Jeezy”.

Se o projeto derrapa em alguns instantes com maior coesão na instrumentação do que nas temáticas, o intento da dupla em agregar elementos mais contemporâneos é certeiro. Antes do disco acabar, Ishmael olha para dentro de casa mais uma vez na tocante “Thanking The Girls”, dedicada a esposa e filha. O álbum também é um tributo ao pai de Ishmael, que morreu enquanto o rapper dava os toques finais ao projeto. (“A morte de meu pai me fez perceber que você tem que prestar bastante atenção em viver a sua vida e estar presente, porque as coisas acontecem tão rápido e as pessoas podem desaparecer muito rápido”, refletiu e aconselhou o músico).

(The Don of the Diamond Dreams em uma faixa: “Chocolate Souffle”)

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