Resenhas

Shamir – Shamir

Passagens autobiográficas e reflexões sobre a juventude constroem álbum que, enquanto passeia pelo Pop Alternativo, ecoa influências de R&B, Rock e Country

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Ano: 2020
Selo: Father/Daughter Records, XL Recordings
# Faixas: 11
Estilos: Indie, Rock Alternativo, Synthpop
Duração: 27'
Produção: Matty Beats, Grant Pavol, Kyle Pully, Danny Murillo

O que significa quando um artista conhecido pelo conteúdo autobiográfico em suas músicas decide batizar seu sexto álbum com o próprio nome? Essa é a primeira pergunta que surge da audição de Shamir, um disco que exala as características que conhecemos de seu criador em cada uma de suas 11 faixas.

Composto por oito músicas e três vinhetas, o repertório passeia pelo espectro musical que Shamir nos apresentou ao longo dos cinco lançamentos anteriores. Há ecos do R&B e Pop de cunho Alternativo do início da carreira em várias das músicas, mas elas orbitam ao redor de Country e Rock, que o músico revela em entrevista ter crescido ouvindo, ao lado de influências como Billie Holiday e OutKast.

Se, no caso de muitos artistas, esses nomes surgem como citações que explicam melhor suas escolhas estéticas, isso vai muito além quando o assunto é Shamir. Ao longo de suas composições, percebemos que ele usa a melancolia do Country, a energia do Rock e o teor sublime do R&B como lentes com as quais enxerga o mundo ao seu redor – ou ainda como vê a si mesmo. Até porque, sabemos, é um disco sobre ele, já a partir de seu título.

A audição das 11 faixas na ordem percebe o desenrolar de uma narrativa desesperançosa, que começa com a revelação de querer estar bem sozinho (“Maybe I deserve a little more / And life will get easier / But I don’t believe in love anymore”, em “On My Own”) e termina na fatídica “In This Whole” (“Leave me in this hole / Was told to find happy the more I grow / But all I feel is ten years too old / Youth is just wasted on the ones who feel immortal”).

A juventude e seu peso são um tema frequente ao longo da obra. Tendo começado a trabalhar aos 16 anos, com discos lançados desde os 19, Shamir parece tentar compreender seu amadurecimento utilizando as já mencionadas lentes musicais. São histórias nem sempre sobre sua vida, mas nas quais ele realiza suas projeções emocionais em eu-líricos de grande intensidade – como a mulher que perde o marido na guerra, em “Other Side”. Seus sentimentos juvenis estão à flor da pele, e ele se mostra no conflito de perceber que não tem mais tanto tempo e energia assim com emoções despropositais.

Por isso, ele canta sobre a disposição de viver um relacionamento disfuncional (“’Cause you’re pretty when you’re mad / And I’m pretty when I’m sad / So, let’s fuck around inside each other’s heads”, em “Pretty When I’m Sad”) ou o desejo de matar alguém em uma faixa de forte teor sexual (“Diet”). Entre a ousadia confessional que marcou sua carreira e o estranhamento que essas situações podem gerar, são também temas que pertencem ao universo estético dessas músicas – respectivamente, o Indie tristonho e o Rock Alternativo mais visceral.

E este é Shamir, um artista que sempre teve a música como ótica para entender o mundo e a si mesmo, e chega agora à vida adulta com essa bagagem exercitada em seu trabalho. Amparado pelo senso de intimidade das vinhetas – que revelam conversas com amigos –, Shamir se conecta ao ouvinte da mesma forma que o faz nos discos anteriores, só que desta vez explicitando a relação entre criador e obra: os dois são um só, visto que ambos são música.

(Shamir em uma faixa: “I Wonder”)

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ARTISTA: Shamir

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.