Resenhas

Shygirl – ALIAS

Acompanhada de time afiado de produtores, compositora londrina explora quatro diferentes personas em projeto cujas influências passam por Trap, House, Trance e Glitch

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Ano: 2020
Selo: Because Music
# Faixas: 7
Estilos: Trap, Trance, Vogue Music
Duração: 19'
Produção: SOPHIE, Arca, Karma Kid, Happa and Sega

Entre os inúmeros aspectos com os quais um artista se preocupa durante a produção de um disco, a coesão parece ser, aos ouvidos da crítica, um dos mais fundamentais. Em incontáveis resenhas por aí, críticos costumam dizer que determinados discos são bons, mas falta neles coesão ou unidade. Assim, tem-se como parâmetro a noção de que a expressão do artista não deve ser feita de maneira catártica e desenfreada, mas seguindo uma lógica e estrutura para melhor comunicar as intenções.

Desta perspectiva, álbuns começam a ser encarados muito mais como uma forma de comunicação formal do que como um processo artístico de expressões subjetivas. Entretanto, a ideia de que discos devem ter obrigatoriamente uma unidade para serem considerados “bons” é facilmente refutada quando uma artista como a londrina Shygirl coloca sua subjetividade à mesa. Subjetividade esta que vem atravessada por uma fragmentação que é, justamente, a sua marca principal.

Seria no mínimo incoerente exigir, de uma artista como Shygirl, uma proposta que “amarasse” sua obra. Apesar de uma carreira relativamente curta, ela já mostra sinais de que sua expressão precisa se manifestar de formas bem diferentes entre si. Seu último lançamento, o EP ALIAS, aguça essa característica de uma maneira bem clara e é um registro ideal para que marinheiros de primeira viagem conheçam sua arte. E a pluralidade não tem apenas a ver com a fusão de referências e gêneros em um mesmo registro, mas, principalmente, com a forma como cada criação é sentida pela compositora, que apresenta diferentes personalidades no decorrer das sete faixas.

Shygirl revela ao público quatro personas – cada qual trazendo um traço seu. São elas: Bae, uma representante da atitude forte e astuta da compositora; Bovine e seu gracejo descolado; Bonk, mais classuda; e, por fim; Baddie, uma faceta mais agressiva de Shygirl e que usa seu corpo como instrumento de luta. Esta natureza plural se reflete nos diferentes gêneros que ecoam pelo projeto: Trap, Glitch Music, Trance, House e Vogue Music.

O disco nos pega pela força da artista logo na primeira faixa. “TWELVE” nos prende pelos timbres estranhos e sequenciados que introduzem um Trap intenso e brutal. O flow de Shygirl é por vezes ácido e ríspido, mas também pode ser fluido e profundo. “FREAK” volta seu olhar minucioso para o barulho como uma linguagem de construção da sua expressão, em uma batida pesada e distorcida. Em “TASTY” é Baddie quem fala conosco, em um misto de Vogue Music e batidas aceleradas e quebradiças – perfeita para os bailes. “BAWDY” se apega aos elementos excêntricos e, entre o assustador e o afrontoso, um ritmo firme e caótico ganha vida. Por fim, “SIREN” encerra o repertório em alta velocidade, flertando com a Trance Music, enquanto Shygirl explora a estética a serviço da

Com um time afiado assumindo a produção, Shygirl se coloca como uma artista completa, que não procura polir as arestas a fim de trazer um disco formatado. O grande brilho de ALIAS consiste justamente em compreender que tudo isso que ouvimos, sentimos e experienciamos é Shygirl. Que aquela unidade tão venerada por críticos faz pouco sentido quando o que torna a compositora única e autêntica é justamente a capacidade de poder se sentir cada uma dessas mulheres em momentos diferentes. E, ainda assim, o trabalho é extremamente coeso, porém esta coesão é construída de outra forma. A unidade do disco é edificada sobre os múltiplos de Shygirl.

(ALIAS em uma faixa: “SIREN”)

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ARTISTA: Shygirl

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.