Resenhas

Siba – Coruja Muda

O pernambucano demonstra uma profunda entrega aos ritmos regionais e versatilidade musical em disco tão diverso e político quanto o anterior, mas com uma veia Pop

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Ano: 2019
Selo: EAEO Records
# Faixas: 11
Estilos: MPB, Pop, Rock
Duração: 48'
Nota: 4
Produção: João Noronha, Siba

Soberana na noite, a coruja emana sobriedade, mistério e sabedoria. Sua visão potente, que a permite enxergar a muitos metros de distância no escuro, fez com que a sua imagem se tornasse um dos símbolos do oculto ao longo da história da cultura ocidental. Além disso, ela é um dos animais com audição mais afinada e sua anatomia prevê movimentos extremamente silenciosos, o que favorece a caça das presas.

A figura da elegante ave de rapina, que, em silêncio, vê e enxerga tudo o que está ao seu redor, foi escolhida pelo pernambucano Siba para dar nome a seu terceiro disco, Coruja Muda (2019), cuja capa exibe o cantor coberto de penas usando um par de óculos com lentes redondas e grossas. No trabalho, ele aprimora e arredonda o que já mostrava em De Baile Solto (2015), seu segundo registro solo: a mistura das experimentações com a guitarra às influências do Maracatu, da Ciranda, do Coco e outras expressões regionais da Zona da Mata de Pernambuco.  

À época da produção de De Baile Solto, Nazaré da Mata, conhecida como a capital estadual do Maracatu – para onde Siba mudou-se em 2002 –, enfrentava, há dois anos, restrições da Polícia Militar aos horários noturnos das sambadas dos grupos de Maracatu de baque solto e virado. Além de declarar apoio à resistência, o cantor decidiu canalizar seu amor pelo grande patrimônio artístico da região em forma de poesia e música. O inegável teor político reverbera agora nas onze faixas com ares de festejo de Coruja Muda, em crônicas sobre o ser humano, a natureza e questões sociais. 

Abre o disco a faixa homônima, com participação de Chico César, que traz uma divertida conversa sobre as condições ideais para a produção de uma fotografia, na qual um dos elementos é a coruja: “Só quem demorasse olhando / Veria a coruja muda / Que ri de mim quando estuda / Tudo o que eu disse cantando”. 

A segunda, “Só É Gente Quem Se Diz”, é um dos pilares da temática do álbum, na qual Siba defende a natureza mais pura, digna e honesta dos animais em comparação à podridão humana. A intenção fica resumida no refrão “Eu ainda vou virar bicho / Que é tudo o que eu sempre quis”. A muriçoca tem um “bico que é um canhão que não atira em ninguém”; o urubu “por ser muito pão-duro, come sem gastar dinheiro”; o macaco “é mais gente que a gente porque não sabe mentir”. Em uma das linhas finais, o cantor afirma “A parte gente no lixo / Com a minha parte bicho / Só fica o melhor de mim”.

Figuras da fauna – principalmente as aves – e da flora aparecem em diversos momentos, ora como objeto de admiração, como em “Daqui Pracolá”, ora ilustrando versos sócio politicamente potentes, como em “Carcará de Gaiola”, na qual o cantor reflete sobre o significado da prisão de um líder político, que cala também seus povo e suas ideias – aqui é inevitável a lembrança da atual situação do ex-presidente Lula –, ou em “O Que Não Há”, sobre a violência doméstica velada na forma de “um bicho escuro e vermelho”. Na faixa, as vozes de Alessandra Leão, Mestre Anderson Miguel e Renata Rosa cantam a terrível realidade: “Quanta violência dá pra fingir que não há/Pra daí achar que dá/ Pra viver”. 

“Azda (Vem Batendo Asa)” transmite leveza e esperança e escancara uma das principais referências de Siba, a guitarra congolesa, desde que encontrou no instrumento um recurso para expandir e reinventar seu som, ainda no período em que integrava as bandas Mestre Ambrósio e A Fuloresta. A faixa é um cover de Franco Luambo, guitarrista expoente do Congo, que construiu uma sonoridade original dedilhando acordes abertos que “dançam por sobre as batidas”, perfeitamente coerentes aos ritmos nordestinos de raiz na percussão africana. 

Em “Tempo Bom Redondin”, Siba reflete sobre como antes sofria com o tempo e conseguiu adaptá-lo a seus modos de vida – quase uma mensagem para os que têm FOMO. Já “Tamanqueiro” é literalmente uma carta de encomenda de um tamanco, com participação de Lindsay e Edgar, e “Barato Pesado” é uma ode aos ritmos musicais da região, que têm efeito curador incomparável ao “usuário”, dispensando qualquer droga. O álbum termina com uma nova versão de “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo/O Mundo Sai do Lugar”. 

Em seu terceiro disco, Siba entrega uma das obras mais autênticas e politicamente importantes da MPB de 2019 ao percorrer expressões artísticas pernambucanas seculares, passar pelo movimento Manguebeat – que colocou seu estado em lugar de protagonismo na música nacional nos anos 1990 – e bebericar de importantes fontes africanas. Para quem ouvir Coruja Muda, como cita o cantor em “Barato Pesado”, “esse seu vazio espiritual / vai passar bem antes do Carnaval”.

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ARTISTA: Siba
MARCADORES: MPB, Pop Rock

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