Resenhas

Silvana Estrada – Marchita

Dosando silêncios com maestria, artista mexicana concentra todo o disco no formato voz e violão e o resultado é um expurgo sincero e comovente

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Ano: 2022
Selo: Altafonte
# Faixas: 11
Estilos: Folk, Chamber Pop
Duração: 37'
Produção: Gustavo Guerrero Capa:

Com a tecnologia musical cada vez mais desenvolvida e acessível, o silêncio tem se tornado um momento escasso. O talento de um produtor musical parece ser medido mais pela capacidade de preencher os espaços vazios do que criá-los. Alguns até chegam a afirmar que dentro de uma música boa, sempre deve haver algo acontecendo – nunca dando chance para um repetição ou, muitas vezes, um respiro. Além disso, o tempo de duração e o sucesso de uma canção também parecem ter uma relação inversamente proporcional – ainda mais em uma cultura de singles que coloca como limite não oficial a marca dos três minutos para hits radiofônicos. Hoje em dia, há cada vez menos espaço e mais demanda de informação.

A vontade de entregar mais em menos tempo recorre a certos sacrifícios criativos. Mas, apesar disso se sobrepor a uma inevitável correspondência com o mundo atual, há artistas que procuram entender o tempo como um recurso particular. Há tempos que nomes como Fiona Apple e Regina Spektor procuram mover suas obras para fora do cronograma apressado da cultura Pop – lançando discos quando têm vontade e sempre privilegiando um movimento natural de seus instintos. A cantora e compositora mexicana Silvana Estrada é mais um nome que se destaca por sua incrível capacidade de síntese.

Com apenas 24 anos e uma curta carreira, sua música tem como característica marcante a ausência de pressa. O trabalho de estreia, Lo Sagrado (2017) (colaboração com Charlie Hunter), deixa evidente como o silêncio e o caminhar tranquilo são marcas presentes de sua sonoridade. Talvez, por insistir em um ritmo próprio e independente do mundo, suas canções sejam tão sinceras e falem de um lugar muito íntimo. Há um respeito pelo seu próprio ritmo, em flertes pelas percussões de Jazz e espaços para que diferentes técnicas vocais sejam experimentadas. Aos invés de ceder aos lugares comuns da música pop mexicana, Silvana demora o tempo que for necessário para contar suas histórias – mesmo que neste tempo seja necessário cantar várias notas. É assim que ela molda seu mundo: retirando os excessos e destacando pontualmente a essência. E quando achávamos que não havia mais nenhum excesso a ser retirado, nos enganamos.

Marchita é a prova de que compositora pode se despir ainda mais das suas partes, reduzindo-a a uma essência mínima. Em seu segundo disco, há uma predileção por destacar dois instrumentos: sua voz, que continua a explorar os limites da técnica, e o cuatro, um violão menor de quatro cordas que ressoa acordes confortáveis para o timbre de Silvana. Com apenas essas ferramentas (e ocasionais adições sonoras), a artista coloca em pauta uma nova relação de intimidade consigo mesma. Aquele tempo veloz e a necessidade de preencher todos os espaços da composição se tornam completamente dispensáveis dentro do universo de Marchita. Desta forma, o “não-apressar” entra em contato com a fagulha inicial do trabalho: o término de um relacionamento que colocou Silvana a repensar não somente suas próprias escolhas, mas o conceito de amor. Talvez por isso, o disco tenha essa característica de não ser apressado, pois estas canções pedem para Silvana que respeite seu tempo, livre de qualquer excesso para compor. Para o ouvinte, o disco apenas pede que nos desliguemos da aceleração cotidiana, a fim de que possamos compreender que os silêncios escolhidos a dedo dizem muito. Muitas vezes, mais do que palavras.

“Más o Menos Antes” é o início do disco, mas também funciona como um final – com uma melodia vagarosa que recorda o antes e o depois do relacionamento em questão. “Te Guardo” fala sobre os olhares e percepção da memória através dos tempos, em um dedilhado frágil do cuatro acrescido de um arranjo de cordas que intensifica ainda mais o aspecto dramático do disco. “Sabré Olvidar” é um ponto central da relação de Silvana com o silêncio, na medida em que ela diz que a partir da ausência do que se quer falar é que o canto surge, libertando a angústia da garganta (“porque el silencio no da opción cuando uno canta/y este dolor se ha de esfumar en mi garganta”). “Carta” contrapõe o momento anterior, em um êxtase dos primeiros momentos de amor, quando tudo é intenso e efêmero. E no final do disco, não temos a companhia da voz de Silvana, na instrumental “La Enfermedad del Siglo”, com um trombone conduzindo uma marcha quase fúnebre.

Marchita é uma reflexão sobre perdas e contradições da vida. Quando Silvana Estrada escolhe retirar os excessos, deixando apenas sua voz e o pequeno violão cantarem, ela também tira pedaços de sua vida. Falar sobre o amor e a perda implica em deixar certas partes de si irem embora. E nós, enquanto ouvintes, somos as pessoas que apanham essas partes e nos emocionamos com cada fragmento. “Marchita” significa murchar, secar, definhar. Como se a história de Silvana fosse uma rosa que desmancha para que possa nutrir o solo. Assim, fica claro como seria impossível para a artista delimitar sua arte dentro do tempo pop mercadológico e superestimulado. Aqui, a matéria-prima de Silvana é o tempo da vida – e o quanto ele tem que durar.

(Marchita em uma faixa: “Sabré Olvidar”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.