Resenhas

Slayyyter – Troubled Paradise

Enérgico e confessional, disco de estreia mescla o Pop radiofônico dos anos 2000 com o peso da PC Music e do Glitch Pop

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Ano: 2021
Selo: Fader Label
# Faixas: 12
Estilos: Hyperpop, PC Music, Glitch Pop
Duração: 36'
Produção: Wuki, Gupi, John Hill, Jordan Palmer, Robokid, Chris Greatti, Dave Burris, Kyle Shearer, Micah Jasper, Nate Campany, Nicopop, Pilotpriest, Schmarx, Zakk Cervini

Seja pela tecnologia encontrando novos caminhos ou pela chegada de um futuro tão anunciado, a primeira década do novo milênio parece ter despertado um frenesi experimental intenso entre as artes. Os anos 2000  trouxeram uma estética que envolvia a colagem de diferentes elementos – Neon se sobrepunha ao estilo Boho, ao mesmo tempo que o futurismo andava junto com uma releitura de roupas ciganas (o que hoje ganha a alcunha de Shipwreck, por conta da similaridade com roupas de náufragos em uma ilha deserta). Na música, isso não foi diferente. Em um mesmo espaço de tempo, havia estilos mais rápidos e brutais de música eletrônica como o Trance; o New Metal consolidava o diálogo entre Rap e guitarras pesadas e distorcidas; E o R&B aprimorava cada vez mais sua abordagem digital. Foi uma época em que os limites se esticaram e era possível experimentar e explorar influências sem medo, com a tecnologia – e os excessos – a favor. Vem daí a linguagem de Catherine Grace Garne, mais conhecida pelo nome artístico Slayyyter.

Como toda criança nascida nos 1990, a adolescência de Catherine foi marcada pela euforia dos anos 2000. E se identificou com o Pop hiper reproduzido de Britney Spears e Christina Aguilera, que vinha acompanhada de uma onda de instrumentos digitais e manipulações cada vez mais agressivas e inventivas. E em sua mixtape de estreia, Catherine não escondeu sua paixão não apenas pela década, mas também pelos subprodutos do período que viriam a seguir. Slayyyter (2019) é uma forte experiência nostálgica, transportando o ouvinte diretamente para o Pop 2000 de cantoras como Gwen Stefani, Ke$ha e Fergie. Assim, com o pano de fundo do Pop 2000, Slayyyter também bebe de PC Music e Glitch Pop, uma mescla de exageros ideal para expressar suas verdades mais internas. Agora, com seu primeiro disco formal de estúdio, a nostalgia fica um pouco mais de lado para ceder espaço a uma artista convicta do que quer.

Troubled Paradise dá um passo à frente da mixtape lançada em 2019. Seu abrupto sucesso, principalmente no TikTok, colocou uma nova perspectiva para a sua obra. Em entrevista para Bustle, ela deixa claro seu desejo de se afastar da estética Bedroom Pop. Diferente de seu antecessor, nada em Troubled Paradise soa como se fosse feito em um quarto e com equipamentos amadores. Muito pelo contrário: para dar conta desse desejo e das diferentes misturas que propõe ao longo das 12 faixas, há uma grandiosa infraestrutura de produção, tanto nos equipamentos quanto no time de produtores escolhidos. Embora não seja em termos práticos a estreia de Slayyyer, o disco definitivamente tem o impacto de um cartão de visita. E seu aspecto hiperbólico faz entender os motivos para que tenha sido chamado por aí de Hyperpop.

“Self Destruct” faz questão de introduzir o registro com uma explosão profunda, em meio a um Trap intenso e um grave que nos arrebata por inteiro. “Throatzillaaa” mergulha direto na fonte da PC Music, trazendo referências como 100 gecs e A.G Cock. “Clouds” retoma a estética Pop dos anos 2000, porém de uma forma mais estereotipada, algo entre Hilary Duff e remixes coloridos à la Dance Music. Já “Serial Killer” se aproxima de uma estética mais tenebrosa, lenta e pegajosa. “Over This!” sintetiza o peso do Rock 2000 com a distorção exagerada do Glitch Pop, tudo isso dentro de melodias das divas teens do começo do milênio. “Letters” retira os excessos colocando uma balada como momento de reflexão final, introspectivo e vibrante.

Os hits radiofônicos dos anos 2000 continuam inspirando a obra de Slayyyter, mas em Troubled Paradise ela aumenta o leque de referências. Catherine acompanha a evolução natural do Pop do novo milênio, que passa por Glitch e PC Music , e a condensa em 12 faixas enérgicas e, ao mesmo tempo, sensíveis. Sem que o teor experimental do Pop se sobreponha à sua estrutura básica primária – e vice-versa.

(Troubled Paradise em uma faixa: “Clouds”)

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ARTISTA: Slayyyter

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.