Resenhas

Sleaford Mods – Spare Ribs

Sexto disco de duo britânico capta o desespero e a urgência de nossos tempos a partir de proposta, de uma só vez, minimalista e Punk

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Ano: 2021
Selo: Rough Trade
# Faixas: 13
Estilos: Alternativo, Indie, Dance Punk
Duração: 42'
Produção: Sleaford Mods

O impacto do Movimento Punk foi determinante para a evolução de determinados galhos da evolução Rock. Mais do que isso, o Punk encarna uma estética que, em grande medida, inaugura uma linguagem combativa e de protesto agressivo, sem metáforas ou suavização de seus conteúdos. A partir disso, os gêneros musicais subsequentes começaram a emprestar do Punk qualidades primordiais desta nova linguagem da violência com propósito, seja na rispidez dos acordes, no desapego à teoria musical virtuosa ou às letras compostas quase que para serem cantadas em grupo e de forma uníssona.

Surgem assim nomes como Dance Punk, Indie Punk, Punk Eletrônico, Garage Punk e uma série de variáveis decorrente da vontade de somar elementos novos a uma proposta já estabelecida e muito poderosa. Particularmente no caso do duo britânico Sleaford Ribs, a linguagem misturada ao Punk sempre foi a música eletrônica. Mas, contrário a muitos, a intenção de Jason Williamson e Andrew Fearn nunca foi de dividir o espaço do Punk com outras sonoridades, e, sim, amplificar aquela explosão inicial a partir de timbres mais ríspidos e cortantes.

Além da união um tanto improvável entre Punk e música eletrônica, o duo também propõe, ao longo de seus 14 anos de carreira, a ousadia de inserir o explosivo gênero em uma abordagem minimalista. Os power chords cedem espaço para notas pontuais e até mesmo a distorção é dispensada e trocada por timbres mais limpos. Discos como Divide and Exit (2014) e Eton Alive (2019) mostram bem como seus integrantes conseguiram captar o espírito Punk da coisa para além de estereótipos e lugares comuns. Mas, então, onde reside o núcleo Punk de Sleaford Ribs? A resposta, apesar de envolver uma série de fatores, está na presença do discurso cantado e, por vezes, falado, como se fosse uma espécie de palestra violenta. É quase como se houvesse uma simplificação daquelas melodias simples do Punk de 1975, a tal ponto que a melodia pudesse ser dispensada e apenas a fala fosse necessária. É justamente isso que o sexto disco do duo, Spare Ribs, procura deixar bem claro: a explosão e poder de um discurso a partir de uma redução minimalista.

O disco já começa em tom descompassado com a faixa introdutória “The New Brick”, dessincronizando propositalmente a batida, sintetizadores e o tom de zombaria do vocalista. “Nudge It” seria quase uma balada BritPop à la Blur no começo da carreira, mas se afasta disso pela ironia das letras e o arrebatador timbre de Amy Taylor. “Glimpses” é mais tradicional, no sentido de priorizar o baixo agudo e pontudo a fim de deixar a composição mais seca e intrusiva. “All Day Ticket” é o que há de mais melódico e dançante no disco, algo como uma mistura entre “Blitzkrieg Bope LCD Soundsystem. Por fim, “Fishcakes” encerra o trabalho num astral melancólico não pela tristeza, mas pelo sentimento monótono construído nas linhas repetitivas, que incrementa o discurso afiado de Sleaford Mods.

Spare Ribs é um disco Punk produzido em contexto adverso. De praxe, o calor e a emoção do Punk têm a ver com contato físico intenso e abrir mão disso por conta de uma pandemia é certamente um desafio. Mas o que poderia ser um entrave funciona de maneira inversa neste registro. A evidência de como o aspecto político tem direta relação com as consequências da pandemia funciona como combustível para o disco e, apesar de este não ser necessariamente o tema central aqui, o contexto biopolítico vigente gera uma vontade de gritar ainda mais alto. A sensação que temos é que Sleaford Mods afirma que “se não podemos estar juntos, então vamos deixar as coisas claras em alto e bom som”. O disco ganha um aspecto ríspido e nítido, quase como ASMR às avessas. Baterias distorcidas e sintetizadores graves se unem às vozes cortantes dos integrantes, como se estivesse desrespeitando a quarentena e falando perto de nós numa distância contra-indicada, porém necessária para que a mensagem penetre bem fundo.

(Spare Ribs em uma faixa: “Nudge It”)

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ARTISTA: Sleaford Mods

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.