Resenhas

Soccer Mommy – color theory

Segundo disco de Sophie Allison coloca a saúde mental em debate, enquanto experimenta pelo Pop

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Ano: 2020
Selo: Loma Vista Recordings
# Faixas: 10
Estilos: Bedroom Pop, Indie, Lo-fi
Duração: 44'
Produção: Gabe Wax

Em meio a tantos novos debates e informações, o tema da saúde mental nunca esteve tão em evidência como nos últimos anos. Cada vez mais, são criados e ocupados espaços que debatem os efeitos de angústias e ansiedades em nosso cotidiano, resultando em diálogos cada vez mais efetivos. A música é um destes espaços e, particularmente nela, ficam evidente as diferentes naturezas e percepções que cada um tem ao narrar suas questões. Sophie Allison, conhecida sob a alcunha de Soccer Mommy, é uma das artistas que compreendem o real significado dessa dinâmica, transformando o ato da composição em alívio. Mas, mais do isso, proporcionando novas formas de se abordar um tema tão sensível.

A relativamente curta discografia de Soccer Mommy reflete um talento cativante que transforma luxos intensos de pensamento em palavras simples e diretas. Tudo permeado por uma sonoridade Pop áspera e Lo-Fi, fusão que se enquadra àquilo que hoje se denomina como Bedroom Pop. Assim, por vezes, o peso de sua proposta pode passar batido, ofuscado por alguns estereótipos de “adolescentes em crise com guitarras chorosas” chegando junto no pacote. Mas essa ingenuidade é exatamente o fator decisivo para tornar seu segundo trabalho de estúdio, color theory, uma surpresa tão impactante. O que a princípio pode parecer um disco construído em cima de um estereótipo, vai revelando camadas e camadas de sentimentos. E na simplicidade das palavras é que Sophie acerta em cheio em nosso estômago. Sua voz doce nos entrega mensagens duras, mas essenciais para seu processo.

Em seu segundo trabalho, Sophie procura demonstrar a complexidade dos fios de sua trama para além das palavras. A sonoridade Indie está lá presente, assumindo com propriedade os lugares comuns do gênero. Mas junto dela vem uma experimentação sutil que produz diferentes nuances para cada faixa. Não é só com as palavras que Sophie é hábil, mas também no direcionamento criativo de saber extrair de cada timbre uma característica única que lhe convenha para sua narrativa. Talvez por isso o disco seja tão comunicativo com o ouvinte. Por meio destes elementos subjetivos imprimimos parte de nossa vivência, tornando color theory muito mais uma conversa do que um monólogo.

O título do trabalho não parece vir à toa. A forma como cada faixa é única em narrativa e sonoridade expressa a construção de cores diversas, na qual a junção de diferentes humores resulta em um terceiro – que não é nem um nem outro. O resultado: as composições de color theory nunca são apenas e unicamente sobre depressão, ansiedade, amor ou esperança. É sempre um híbrido, uma mistura entre ingredientes colocados em proporções diferentes. Assim, Sophie tece um retrato mais realista do caos de emoções em sua cabeça, em vez de tentar nomear adequadamente cada um destes sentimentos.

“bloodstream” abre o disco em uma balada aprazível e suave, mas cuja letra traz uma narrativa sobre como seu processo de ansiedade envolvia muita agressividade e violência (chegando às vezes a quebrar coisas para poder parar de pensar). O single “circle the drain” é uma das composições mais perspicazes do disco, colocando influências do Pop altamente comercial do começo dos 2000 (Sheryl Crow, Meredith Brooks) para embalar uma letra sobre nunca escapar dos pensamentos negativos durante quadros de ansiedade.

Com interessante trabalho de edição de áudio, “night swimming” mistura o reverb infinito de uma guitarra acolhedora ao burburinho de pessoas ao fundo, o qual, segundo a compositora, reflete o quanto somos sozinho, ainda que em convivência. “stain” é uma faixa que traz a angústia de forma mais direta, imprimindo acordes de guitarra no melhor estilo do Placebo em início de carreira. Por fim, “gray light” fecha o disco com uma sutil drum machine guiando o ouvinte por um drone de efeitos psicodélicos, como se estivéssemos à deriva dos pensamentos de Sophie. Apenas aceitamos.

color theory traz o mesmo espírito de intimidade que se relaciona à escolha do termo Bedroom Pop. Funciona como se tivéssemos acesso direto aos conteúdos mentalmente digeridos pela compositora. Por conta disso, pode não ser um disco prazeroso de se escutar, pelos gatilhos que isso pode despertar. Entretanto, se revela uma experiência madura e que renova seus sentidos a cada audição. Sophie consegue transformar o estereótipo do adolescente perturbado em um material sensível. Como um tratado sobre saúde mental.

(color theory em uma faixa: “circle the drain”)

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ARTISTA: Soccer Mommy
MARCADORES: Resenha

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.