Resenhas

Sofia Freire – Garimpo

Estreia da cantora e compositora pernambucana belas melodias e habilidade ao piano

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Ano: 2015
Selo: Joinha Records
# Faixas: 12
Estilos: Dreampop, Chamber Pop, Eletrônica
Duração: 42:38
Nota: 4.5
Produção: Sofia Freire, China, Chiquinho Moreira e Homero Basílio

Vamos direto ao ponto: a estreia da cantora e compositora pernambucana Sofia Freire é adorável. É possível cravar que não há nada parecido sendo feito no Brasil em 2015. Garimpo já seria muito legal se não fosse tal ineditismo, mas as canções que ela entrega são cheias de personalidade, muito bem gravadas e com aquilo que costumávamos chamar de “alma” há algum tempo, quando pousava na nossa mão um disco com referências tão bem apropriadas a ponto de se tornar algo… novo. Sofia ainda não chegou nesse ponto, mas é promessa de bons frutos em pouco tempo. E olha que ela mal completou 18 anos. Mas não vamos cair na armadilha de enaltecer o trabalho da moça apenas por ela ser jovem, sabemos que a música pop não passa, necessariamente, pelo tempo. Sua graça é, justamente, valsar ao redor da teoria da relatividade, desafiando parâmetros estabelecidos.

Se fôssemos pensar em termos de panorama Pop brasileiro, de fato, Sofia carrega sozinha a bandeira da música moderna, pianística, com vocais meticulosamente dispostos em camadas harmônicas em estúdio, em meio a ruídos eletrônicos que reproduzem batidas, canto de passarinhos, barulhos aqui e ali, que podem ser da floresta, do sonho, de qualquer lugar. Tudo joga a favor das canções que, sim, aguentam a pressão. As letras são pinçadas de poemas escritos pela irmã Clarice e pelo pai, o escritor Wilson Freire, em diferentes momentos. Há palavras pensadas e rabiscadas ainda na década de 1980, muito antes da menina dar as caras por aqui. A forma como essas palavras se integram às melodias compostas por ela é muito bonita. Surgem ecos de Pop progressivo setentista, no sentido Kate Bush/Sally Oldfield do termo, mas as palavras puxam tudo para o Brasil rural idealizado, para canções obscuras de MPB alternativa, da mesma turma de Boca Livre, Fátima Guedes, talvez Joyce.

Não se engane com as referências velhuscas, a música de Sofia tem grande parcela de seu DNA nas obras de gente como Joanna Newson e Bon Iver. É o Folk dessa galera de hoje, revisitando as paragens de ontem, que fazem a cabeça da menina. Exemplos não faltam: Grilos, a melhor canção do álbum, surge logo após a rápida e lírica Voa, trazendo instrumental que poderia ser de Vangelis, mas arremete para o futuro por conta de certo clima Lo-Fi presente. As vozes entrelaçadas dão o tom lírico da coisa, mostrando que o pessoal no estúdio sabia exatamente o que estava fazendo. Correntes de Ar, que vem em seguida, é puro piano derramado, soando como uma Tori Amos pós-adolescente tentando fazer uma valsa mas conseguindo algo ainda mais interessante. Leveza, com letra de Clarice, ao contrário do título, traz batidas e percussões que casam bem com a ideia de natureza revisitada em forma de música que permeia o álbum. Olhos de Camaleoa é mais eletrônica e pisa fundo na construção das camadas de vocais em meio a uma batida robótica cheia de barulhinhos.

Napó é canção para fazer pequenas fadas saírem dançando pelo caminho do passante, abrindo passagem para Fel, com letra séria do pai Wilson, conduzida por elegante fraseado ao piano/teclado; Inventos Para Se Viver traz piano, baixo e guitarra jogando juntos para sustentar a voz pós-adolescente de Sofia, falando sobre medos e inquietações de menina de 18 anos diante da vida. Ciclos aprofunda o piano como elemento condutor das canções de Garimpo, mostrando que a menina tem real habilidade no instrumento. Dois Desertos tem um belo uso de sintetizadores, seja na melodia, seja na construção de percussões sintéticas para adornar letra falando de céu, madrugada e desenhos no papel. A arremetida para o fim do álbum vem com a chegada de A Colheita, com belo arranjo de instrumentos eletrônicos e humanos, tudo junto a favor da melodia bela, chegando ao final com Navegante, propulsionada por batidas intencionalmente datadas, percussões misteriosas e fraseados pianísticos que adornam a voz da menina dizer versos como “barco que não navega não enfrenta calmaria, não se quebra em tempestade, nem se perde em travessia, mas vive em porto segura, se afunda em agonia”.

Não se engane: se tudo der certo, ouviremos falar coisas boas de Sofia Freire em pouco tempo. Seu disco é uma belezura total.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.