Resenhas

Soft Cell – *Happiness Not Included

No primeiro álbum de inéditas em 20 anos, duo britânico retorna vigoroso e ainda mais mordaz

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Ano: 2022
Selo: BMG
# Faixas: 12
Estilos: Synth Pop
Duração: 55'
Produção: Dave Ball

A música pop tem um fascínio cruel pela juventude. Enquanto em outros gêneros musicais, como o rock, o country, soul, MPB, só para citar alguns, o acúmulo de experiências é visto como uma qualidade que engrandece a obra dos artistas, no pop o passar dos anos ainda é visto como uma espécie de pecado (especialmente quando se trata de mulheres). Quando se fala em música para as pistas de dança, parece se pressupor que aquele som e espaço não são feitos para corpos mais velhos, o que se reflete também na ausência de discursos que expressam esse estágio da vida.

Por isso *Happiness Not Included, primeiro disco de inéditas do Soft Cell em 20 anos, não só é um trabalho excelente por suas qualidades artísticas, como também se destaca por ir na contramão dessas convenções, com relatos permeados por desejo, medo, resiliência, ousadia, sarcasmo e contestação. Pioneiros do synthpop, Marc Almond, 64, e Dave Ball, 63, imprimem no disco um tom sombrio como o tempo em que foi concebido, capturando, como fizeram há 40 anos, com o icônico Non-Stop Erotic Cabaret (1981), as angústias de uma sociedade massacrada por crises econômicas, políticas e por um vírus que reconfigurou (mesmo que momentaneamente) a forma como as pessoas se relacionam.

Dessa vez, porém, não mais como os jovens de 20 e poucos anos, mas como dois veteranos que viram os altos e baixos da fama, dos relacionamentos (inclusive da amizade entre ambos, o que gerou alguns hiatos no duo) e do entorno. Se quando eles se apresentaram para o mundo com o disco de estreia havia o atrevimento e o hedonismo de quando a vida adulta está apenas engatinhando e o tempo não parece finito, agora há um olhar apurado sobre a vida e a proximidade da morte. Mas não há lamento: Almond e Ball continuam dançando no seu próprio ritmo, sem perder algumas de suas características mais marcantes, como o sarcasmo e o gosto pelo risco.

Happiness Not Included é um álbum que opera em três tempos: revisita o passado, finca os pés no presente e também vislumbra o futuro, sem, no entanto, realizá-lo. O mundo está ruindo e não é possível mais sustentá-lo com remendos: a destruição pode, também, ser o início de um novo ciclo. Na faixa de abertura do álbum, “Happy Happy Happy”, Almond fala sobre como a sociedade que foi sonhada na sua juventude está longe da realidade do presente. “Para onde foram todas as nossas esperanças?/ Todos os nossos sonhos ingênuos vão?/ Seriam apenas histórias de ficção científica?/ Nós nunca saberemos realmente”, canta.

A percepção de como a realidade se apresenta diferente da idealização é um tema recorrente no álbum, como em “Bruises on My Illusions”. A produção, calcada no sintetizador instigante de Dave Ball, assim como a interpretação de Marc Almond, estabelece a atmosfera que permeia o trabalho – e a obra do Soft Cell como um todo: é um disco para as noites e suas criaturas, com as percepções turvas e fascinantes que as luzes de neon, gelo seco e o escuro podem oferecer. O disco consegue captar o zeitgeist de uma época em que afeto e tesão são majoritariamente mediados por telas, onde o toque, por quase dois anos, era possivelmente letal e na qual o futuro está longe de parecer promissor. E faz isso subvertendo as expectativas ao reforçar que ainda pode haver saída na dança, suor, erotismo e rebeldia.

Em “Polaroid”, Almond relembra a época em que ele e Dave viveram em Nova York, a “junky jungle”, nos anos 1980. As noites na lendária Factory, onde Andy Warhol reunia uma fauna de desajustados em noites regadas a arte, música, sexo e drogas. Era o momento pré-eclosão da epidemia da Aids, e o primeiro álbum do Soft Cell serve quase como uma fotografia instantânea daquele período (vide o hit “Tainted Love”), como explicita a nova faixa. E, como toda fotografia, é um registro suspenso no tempo, impossível de se reproduzir – percepção que fica muito clara para a dupla, que em nenhum momento parece saudosa.

Essa percepção fica ainda mais clara em “Nostalgia Machine”, que apesar do que o título pode indicar, não idealiza o passado. É uma canção vibrante sobre viagens de percepção, de estado de espírito, uma celebração do poder da música e das máquinas, esses grandes símbolos da modernidade, mas com a sagacidade queer habitual de Marc Almond, que afirma que sua máquina do tempo é um sintetizador movido a glitter, “zumbindo como um vibrador rosa”.

Um dos momentos mais fascinantes do álbum é a participação do Pet Shop Boys em “Purple Zone”. É um momento de encontro entre dois dos duos mais influentes da música pop da década de 1980 – e uma celebração da influência do Soft Cell, sua musicalidade e estranheza em toda uma geração. Isso porque o Pet Shop Boys foi formado em 1981, ano do lançamento do Non-Stop Erotic Cabaret e o vocalista Neil Tennant e o tecladista Chris Lowe tinham “Bedsitter”, um dos singles do álbum, como uma de suas faixas favoritas.

No início do sucesso global da dupla, Almond não falava sobre sua homossexualidade, enquanto hoje é um ícone assumido da comunidade. Apesar de não ser um duo homossexual – Almond é gay, enquanto Ball é hétero – o Soft Cell é um duo 100% queer e é essa visão de mundo que permeia todas as letras. Há um deslocamento do status quo e um constante sentimento de inadequação que só parece amenizado quando se está em ambientes voltados para todos aqueles rejeitados pela sociedade, que precisam criar suas próprias tribos, como mostram na ótima e pulsante “Nighthawks”. É revigorante perceber que 40 anos após sua estreia, o duo continue tão disposto a não se encaixar.

Ao longo das composições deste novo trabalho do Soft Cell, fica a impressão de que ele é um álbum sobre o fim, com um aspecto quase niilista. As imagens criadas pela dupla, com algumas exceções, são apocalípticas, como na brutal “Heart Like Chernobyl”. Nela, Almond faz um relato sem filtros do caos íntimo e social que o circunda direta ou indiretamente. “Me sinto como a Coreia do Norte no inverno/ Eu tenho um toque tóxico porque tudo está morrendo ao meu redor/ (…) O noticiário me fez assim/ Outro horror todos os dias/ (…) Cuidado com o reator cinco/ Ninguém sai vivo/ Então faça apenas o que você tem que fazer/ (…) É tudo culpa da mídia/ E todo o medo que eles te alimentam/ Me jogue no lixo/ Eu tenho um coração como Chernobyl”, entoa.

“I’m Not a Friend of God” é outro destaque do álbum e carrega um dos momentos mais melancólicos do novo trabalho, ainda que Almond cante com resignação sobre o fim. Ele questiona a figura do Deus punitivo, que não o aceita (e, aqui, parece servir como uma metonímia para todos os LGBTQIA+) e age com crueldade com aqueles que não seguem sua palavra. “O futuro tem uma cara assustadora/ Um país onde eu não tenho lugar/ Eu não temo muito porque estarei morto/ Deixe que os jovens lidem com isso”, entoa.

Reflexões políticas, inclusive, estão presentes com mais força neste álbum, como na ótima faixa-título. “Não podemos higienizar nossa história/ Só porque não é o que queremos que seja/ A Inglaterra foi construída sobre tristeza e dor/ Escravidão e ganho ilícito”, refletem, tocando ainda em temas como a vida performada nas redes sociais, guerras e controle das vidas pela política e a mídia. É também um exemplo de como o Soft Cell não dissocia a política da pista de dança: é possível dançar, gozar, se divertir, chorar e protestar nesse espaço.

As observações sobre a passagem do tempo e a aceitação da finitude aparecem nos momentos mais delicados do álbum, a exemplo de “Tranquiliser”, na qual Almond canta sobre os amigos mortos, o telefone que nunca toca e como, ao invés de ir ao cinema, pois tudo em cartaz são remakes dos anos 1980, ele prefere tomar um tranquilizante e dormir. É uma das letras mais cortantes do novo trabalho e dialoga diretamente com “Light Sleepers”, que lembra as crônicas de Lou Reed sobre os notívagos, e a vontade de, apesar de tudo, viver cada segundo antes das luzes se apagarem.

O disco se encerra com “New Eden”, uma faixa com algo de esperançoso e delicado, que assume um tom quase gospel – soando quase como um réquiem. É como se a jornada (musical, da vida, da nossa sociedade) chegasse ao fim – ainda que a letra aponte para um desejo de um recomeço, de se encontrar um novo paraíso, um lugar onde seja possível ser sem precisar se adaptar.

*Happiness Not Included é um álbum com o DNA do Soft Cell, o trabalho mais consistente e potente dos britânicos desde sua estreia, e também um lembrete de que o pop envelhece – e isso é bom. Eles, como Madonna, Janet Jackson, Cindy Lauper, Mariah Carey, Pet Shop Boys e outros ícones da música dance sobreviventes dos anos 1980/início dos 1990 ainda têm muito a falar e dançar – e não pela perspectiva de uma juventude idealizada, mas de corpos com vivências acumuladas, de velhices e desejos diversos.

(*Happiness Not Included em uma faixa: “Happpiness Not Included”)

 

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