Resenhas

Sonic Boom – All Things Being Equal

Após 30 anos de espera, Pete Kember ressignifica e dá continuidade à sua obra de psicodelia extrema, assumindo discurso mais politizado e avassalador

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Ano: 2020
Selo: Carpak Records
# Faixas: 10
Estilos: Psicodélico, Ambient, Drone
Duração: 38'
Produção: Sonic Boom

Peter Kember pode não ser tão conhecido como outros nomes da psicodelia hoje em dia, mas certamente é representante e contribuinte emblemático. Membro do Spacemen 3 (banda em conjunto com Jason Pierce, do Spiritualized), ele adentrou a música psicodélica lá no final dos anos 1980, época extremamente influenciada pelo avanço tecnológico dos sintetizadores polifônicos e sequenciadores. Seus primeiros experimentos puderam ser registrados. Além disso, Peter também assinou a produção de discos mais recentes e marcantes do gênero, como os de Beach House, Panda Bear e MGMT.

Entretanto, além de produtor musical, Peter assume uma faceta de pesquisador e experimentador assíduo que, infelizmente, fica mais escondida entre aqueles outros trabalhos. Na década de 1990, o produtor e compositor inglês viveu uma de suas épocas mais prolíficas, entregando uma série de registros sob o nome E.A.R (Experimental Audio Research). E também viveu um conturbado período de dependência química, fato que impulsionou uma drástica mudança de sonoridade em seus discos.

Mas tudo isso começa em 1989 com um singular registro chamado Spectrum, assinado sob a alcunha de Sonic Boom. O trabalho concentrava uma carga lisérgica densa, construída com sintetizadores monótonos e palavras que eram proferidas quase como se fossem mantras. Hoje, pouco mais de 30 anos depois, Pete parece se apropriar desta narrativa passada para lidar com um cenário atual tão gótico.

É certo que a pandemia tem nos feito rever uma série de concepções antes consideradas fixas e imutáveis. Contudo, o que Pete Kember parece nos propor com a experiência de All Things Being Equal é algo que supera esta desconstrução, deixando restar pouco ou quase nada de nossos apoios originários para prosseguir nesta viagem imersiva. Ao proclamar, no título do registro, a equidade de todas as coisas, Pete não tem a pretensão de se tornar uma Miss Universo genérica que desconsidera todas as questões sociais gritantes contemporâneas. O disco de Sonic Boom parece mirar a retaliação e se volta para questões de meio ambiente, consumismo, política e interconectividade. Se as coisas são iguais, como ele afirma, então elas são terrivelmente avassaladoras para todos (em graus diferente, porém sempre avassaladoras). Assim, Sonic Boom é um projeto que revisita a sonoridade que construiu nos anos 80/90 e as usa como um recurso para sonorizar uma contemporaneidade tão complexa.

Este é um ponto chave da sonoridade do disco. Grande parte das ideias aqui foram construídas a partir de loops e arpeggios de sintetizadores engavetados e, posteriormente, com incentivo de Tim Gane (Stereolab), foram lançados como faixas instrumentais. Porém, Peter optou por colocar letras nessas faixas, contribuindo para uma construção extremamente lisérgica. As suas palavras se juntam, então, com loops de sintetizadores, texturas que reverberam distopia, baterias analógicas e vocais perturbadores para edificar um mundo marcado pela constante mudança. E isso se reflete nas diferentes naturezas das faixas. Há momentos em que somos suspensos pelo sentimento drone da música, enquanto Pete conta sobre um menino que se curou do câncer se imaginando como uma nuvem (“Just Imagine”). Ou nas batidas enfurecidas e tribais enquanto Pete discursa sobre a ética cotidiana (“The Way That You Live”)

É curioso que, às vezes, seja colocado que Sonic Boom “demorou” 30 anos para lançar um novo disco, como se, de alguma forma, ele tivesse parado esperando a inspiração vir. All Things Being Equal marca o ponto final de um processo longo de experimentação sonora, mas também de reflexão sobre a constante, crescente e desvairada contemporaneidade. É uma psicodelia que toca diferentes esferas. Um disco particular sobre um todo complexo. Um grande mantra que não tem a pretensão de nos relaxar, mas apenas de expor nossa vulnerabilidade. Uma vulnerabilidade preciosíssima.

(All Things Being Equal em uma faixa: “Just Imagine”)

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ARTISTA: Sonic Boom

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.