Resenhas

Spirit of the Beehive – ENTERTAINMENT, DEATH

Com colagens sonoras ainda mais ambiciosas e agressivas, quarto álbum do grupo é uma viagem instigante e muito bem conduzida

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Ano: 2021
Selo: Saddle Creek
# Faixas: 11
Estilos: Psicodelia, Dream Pop, Experimental
Duração: 36'
Produção: Zack Schwartz e Corey Wichlin

Apesar de haver uma certa praticidade em dividir diferentes sonoridades em gêneros e subcategorias, há sempre artistas que conseguem desafiar esta sistematização. Muitas vezes, a solução acaba sendo encaixar estes artistas na categoria “experimental”, realçando um status de “é diferente de tudo que você conhece”. Mas, por vezes, parece que nem este termo consegue dar conta de expressar a peculiaridade de certas estéticas. Um desses desafiadores da taxonomia musical é a banda americana Spirit Of The Beehive, que, ao longo de sete anos de carreira, traz marcas bastante características e ao mesmo tempo dá passos sutis, porém ambiciosos.

Qualquer um que entre em contato com seus discos passados, como a estreia em 2014, ou ainda o suave e estranhão Hypnic Jerks (2018), poderia supor que não se trata de uma sonoridade tão diferente ou complicada de se definir.  Há uma linguagem que permeia referências da década de 1990, principalmente nos terrenos de Shoegaze, Dream Pop e o Indie Rock aos moldes do Pixies. Ou seja, muita distorção, baixa fidelidade e vocais descompromissados com a afinação. Poderíamos falar de um som rústico. Entretanto, o que é muito específico da banda é a forma como ascomposição e os arranjos oscilam entre estes gêneros. Quando há uma propriedade de se falar que tal música é mais Dream Pop, ela começa a tomar vida própria, invadindo os terrenos dos gêneros vizinhos. Assim, escutar um disco de Spirit Of The Beehive é como estar submetido a um movimento de navios, em que nunca estamos totalmente parados, mas indo de um lado para o outro. O aspecto experimental da banda não está em grandes intervenções e maluquices, mas na constância em transitar por esses gêneros, seja com sutilezas ou abertamente.

Entretanto, no novo disco, a viagem não é mais tão discreta. Na verdade, estamos diante de uma tempestade que vai nos sacudir bastante. ENTERTAINMENT, DEATH traz uma nova dinâmica na percepção e execução destas sonoridades e há alguns motivos pelos quais houve esta mudança. De um quinteto, o grupo passou para um trio, abrigando o novo integrante Corey Wichlin. Além disso, diferente do processo de composição rápido em seu disco anterior (que se deu em uma semana), para este trabalho a banda trabalhou de forma remota, o que resultou em quase três meses de experimentação.

Um novo olhar criativo e um significativo aumento no tempo de produção foram suficientes para que novas propostas surgissem. A dificuldade de categorizar ainda é latente, mas o que antes era uma oscilação constante, agora ganha um aspecto errático e bruto. A experimentação neste disco é certamente mais ambiciosa, a ponto de incorporar outras estéticas que não aquelas do Rock Alternativo dos anos 1990. Há elementos mais voltados para música eletrônica e a colagem de samples, por exemplo.

Além disso, pela pluralidade de elementos que ganharam espaço, há um aspecto psicodélico no disco. Não no sentido Tame Impala/Mutantes da coisa, mas se valendo da relação arbitrária dos elementos para formar texturas completamente lisérgicas e, aparentemente, desordenadas. “Aparentemente” porque, se prestarmos atenção, percebemos que todas as mudanças bruscas de gêneros, timbres e arranjos estão em perfeita harmonia.

O disco começa no caos desconexo de “Entertainment”, uma série de colagens de diferentes canções que funciona como um prelúdio, nos antecipando os próximos passos do disco. “Wrong Circle” é uma das faixas calmas, que mistura elementos da Ambient Music com a Psicodelia, em inserções sonoras pontuais e cheias de truques de edição. “Give Up Your Life” bebe daquela fonte da juventude dos anos 1990, em um misto de My Bloody Valentine com Sonic Youth. “The Server Is Immersed” une o Dream Pop com timbres derretidos daquele Indie Mac DeMarco Lo-fi, sem abrir mão de guitarras efusivas e distorcidas. “Wake Up (In Rotation) pula para outra dimensão do Indie, quase como se Belle and Sebastian tivessem tomado ácido e estivessem em pleno delírio. Por fim, “Death” encerra de forma contrastante com o início do disco: menos caótica e mais acolhedora – ainda que este acolhimento seja feito com lisergia e sintetizadores enérgicos.

O novo disco de Spirit Of The Beehive amplifica a ambição da banda, em um de seus melhores registros. É um trabalho de colagens extremas, porém feitas com cautela. Este talvez seja o aspecto mais interessante do disco: a capacidade de propor intervenções sonoras cortantes e agressivas, colar umas com as outras e, mesmo assim, não parecer um Frankenstein aleatório. ENTERTAINMENT, DEATH carrega uma sonoridade própria, viva e instigante.

(ENTERTAINMENT, DEATH em uma faixa: “Give Up Your Life”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.