Resenhas

Spoon – They Want My Soul

Moderno e exaltando a idade do grupo, trabalho é um dos melhores disco de Indie Rock do ano sem ser óbvio em nenhum instante

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Ano: 2014
Selo: Loma Vista
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock
Duração: 37:29
Nota: 4.0
Produção: Joe Chiccarelli, Dave Fridmann

Inevitavelmente, a única certeza na vida é a morte. Ou seja, que a passagem de tempo acontecerá de uma forma de outra. Logo, todo o resto é consequência e, para muitos um simples jogo de vitória ou derrota. No entanto, poucos tem a consciência do que é todo esse resto. Pouca noção do seu propósito, do sonho criado e da identidade inerente, aquela que cisma em permanecer na barba grande, na roupa “pouco social” ou nos gostos que parecem que incrivelmente não mudar. Para Spoon, tal sinalização sempre surgiu no apreço com o Soul, gênero musical que, mais do que sua simples transmissão de sentimentos, é na verdade o real contato entre o músico e o ouvinte, a conexão que permanece para sempre.

Foi assim que, após de mais de vinte anos de carreira, o tempo bateu na porta. Oito discos se passaram e o espírito, esse vive. Se você ouvir They Want My Soul e tiver o mínimo contato prévio com o grupo texano, saberá que é um álbum de Spoon. Seja na voz aguda e característica de Britt Daniel, sempre retirada dos mais inimagináveis lugares para alcançar tal tom, ou a guitarra compartilhada com Rob Pope – timbre seco, rápido como se nunca tivessemos saído de 2004 e a consolidação do Indie Rock com Franz Ferdinand e seu segundo disco, You Could Have it So Much Better -, você sabe de quem se trata. É nesta noção que algumas características despontam: a maturidade que só quatro anos de distância podia cultivar, Transference (2010), alguns projetos solos, como Divine Fits e um retorno aos palcos traria.

No entanto, se a constatação é a mesma, temos o melhor disco de sua carreira em muito tempo e talvez um dos melhores do ano no quesito diversão e modernidade. Dificilmente você se deparará com um momento musical tão nostálgico e ao mesmo tempo contemporâneo como They Want My Soul, seja pelas melodias grudentas, pela voz da experiência – Rent I Pay, abre o disco com os dizeres indiretos: “Eu faço essa música e ela paga minhas contas há 20 anos” -, ou por simplesmente ser um dos discos mais agradáveis do começo ao fim. O acréscimo de um novo guitarrista/tecladista, Alex Fischel, trouxe vigor e novos ares – arpejos no sintetizador, pequenas texturas e detalhes deixam o trabalho ainda mais grandioso e interessante.

Se o Soul passa desde a evidente relembrança ao passado e o seu clássico disco Ga Ga Ga Ga Ga (2007) no Rock cheio de marra Rainy Taxi ou na faixa título, um outro elemento parece grudar cada elemento da obra de forma única: sua Psicodelia inerente. Inside Out é uma das músicas mais sensíveis e lisérgicas do ano, enquanto a combinação Knock Knock Knock e Outlier é quase uma recriação dos momentos mais felizes e bonitos de The Flaming Lips (os produtores tem um passado antigo com viagem sonora indo desde MGMT até The Shins e Minus the Bear).

Logo, todos parecem estar muito cientes do que estão fazendo e o resultado não poderia ser melhor: o álbum não cansa em nenhum momento, algo que parecia sempre surgir no ímpeto do grupo e seu gosto por riffs de guitarra rápidos. O foco está quase integralmente agora em um constante Swing, um jeito antigo de se fazer Rock quando o estilo ainda compartilhava os embriões da música negra e procurava acima de tudo te fazer dançar. Idêntico à imagem criada do grupo – Funky, enérgico e sexy – Spoon é, acima de tudo, uma prova da vitória do espírito e, sem perder as suas raízes, faz de They Want My Soul possivelmente seu disco mais surpreendente com uma das baladas do ano, a viciante e emotiva Do You. Escute-a uma vez e saberá porque não só essa faixa, como diversas outras fazem deste um dos artistas que você deve ouvir em 2014.

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ARTISTA: Spoon
MARCADORES: Indie Rock, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.