Resenhas

St. Vincent – St. Vincent

Projeto de Annie Clark cumpre a promessa com a medida exata de sua veia Pop dançante e recheada de contrastes obscuros

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Ano: 2014
Selo: Loma Vista/Republic
# Faixas: 11
Estilos: Pop Experimental
Duração: 40:05
Nota: 4.0
Produção: John Congleton
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fst.-vincent%2Fid767648943%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Chegar à altura de seu quarto álbum solo após uma carreira incensada pela crítica não deve ser uma tarefa fácil. Mas existe algo no semblante de Annie Clark ao assumir sua persona de St. Vincent que traduz precisamente esse sentimento constrastante de segurança à respeito do próprio fazer artístico que se mistura à um ímpeto criativo indomável.

Contraste sempre foi a fórmula mágica de Clark. Sua aparência transmite certa serenidade (e fofura) à primeira vista, mas que não deixa de esconder um olhar malicioso capaz de atitudes radicais para quem estiver mais atento. Sempre foi assim, desde a atitude blasé e impassível diante de situações cotidianas cruéis que assume em seus clipes (como nas tentativas de assassinato da família “Wes Andersoniana” em Cruel, ou quando se expõe como escultura ultra-realista diante do olhar nublado de um público passivo em Cheerleader), quanto em sua música, que apresenta hits Pops de melhor qualidade sempre com temperos cuidasomente calculados de estranheza, timbres abrasivos, melodias ardidas e é claro, suas letras, que misturam o melhor do lirismo obscuro, obsessivo e friamente honesto com a sensibilidade de suas fórmulas poéticas.

St. Vicent revela em sua homonimidade que o álbum é a consagração da encarnação de Clark em seu projeto. É o fenômeno da materialização da carreira de uma banda em um disco. Assumindo na capa de seu álbum a postura das altas castas hieráquicas da Imperatriz do jogo de Tarô, Clark coloca-se ciente de seu poder e posição sob um trono Pop de aparência plástica e cor-de-rosa, ostentando seus cabelos loiros cacheados (esteriótipos da aparência angelical), embora estejam armados e revoltos, platinados e de raiz aparente. À sua frente, as iniciais S, T e V que condensam o seu nome foram transmutadas em símbolos conhecidos da geometria sagrada, a saber, círculos, a cruz e o cálice. Pois é sob todo este aparato ocultista que temos St. Vincent e a sua música feita para se dançar no funeral.

Cumprindo a promessa de lançar mais um grande trabalho (o novo álbum de Clark figurou entre as nossas grandes expectativas para esse ano), St. Vincent chega com a força que devia. Das delicadezas melódicas e demonstrações virtuosas da grande musicista que é desde sua estreia, até a evolução sutil das suas experimentações ao longo da carreira (veja nosso artigo especial sobre ela aqui), passando pela influência de sua parceria com David Byrne em Love This Giant (ouça a ótima Digital Witness, e me diga se não dá vontade de retomar a audição da discografia dos Talking Heads), St. Vincent assumiu seus constrastes e estranhezas, já sabe o que fazer, encontrou suas particularidades e a medida exata em que pode trabalhar sua veia Pop (quase radiofônica). Voz impecável, arranjos improváveis, toques obscuros, quando temos mais St Vincent, felizmente, nunca temos mais do mesmo.

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ARTISTA: St. Vincent
MARCADORES: Ouça, Pop Experimental

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.