Resenhas

Stefanie – BUNMI

Rapper vai das feridas aos sorrisos em estreia poderosa que celebra mais de 20 anos de trajetória

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Ano: 2025
Selo: Jambox
# Faixas: 10
Estilos: Rap
Duração: 38'
Produção: Grou e Daniel Ganjaman

É natural do rap, mais ainda do que em outras vertentes musicais, que toda música tenha um quê de autobiografia. Não é diferente com Stefanie, que traz como proposta uma investigação de sua identidade – a soma de sua história, personalidade e visão de mundo – ao longo da narrativa de BUNMI. A obra dialoga com os mais de 20 anos de carreira da rapper, que lançou este seu primeiro álbum aos 41 anos. Ou seja, há muito o que contar e também uma visão mais esclarecida, ou elaborada, sobre suas vivências na sociedade, na família e em seu íntimo.

Há também na natureza da obra um conjunto de características que fazem com que o disco esteja longe do status de “estreia”, “debut” e classificações afins. Tem a ver com a maturidade de suas rimas e flow. Também está refletido nas muitas ambientações pelas quais seus versos passam, resultado da produção refinada da dupla Grou e Daniel Ganjaman. Eles guiam a voz de Stefanie por diferentes atmosferas, entre um rap de peso e a leveza do neo soul, como em “Puro Love”, com Luedji Luna.

A própria escolha dos convidados comunica a consistência de sua carreira. Mahmundi canta na faixa de abertura (“Fugir Não Adianta”), e abre espaço para nomes como Kamau, Ana Tijoux e Jonathan Ferr, entre vários outros, adicionarem seus talentos ao repertório. Outro pedaço importante de sua história pessoal, e também de sua geração do rap em São Paulo, está na faixa “Maat”, que repete o elenco que Kamau reuniu em 2008 em sua “Porque Eu Rimo”: Rashid, Emicida e Rincon Sapiência, além dele e de Stefanie.

Acima de todas essas características, há outro aspecto do álbum que revela uma artista com boa experiência: saber expressar a si mesma, conhecendo o risco da exposição e comprando a briga mesmo assim. Ela fala abertamente de experiências de quase morte, seja pela violência ou pelo desejo de tirar a própria vida, comenta o luto após a perda dos irmãos e o impacto do nascimento do primeiro filho.

Da mesma forma, Stefanie abre a ferida compartilhada por toda uma população ao comentar o racismo sofrido desde a infância e o impacto dessa violência em sua saúde mental – “Desconforto” é um dos grandes momentos do rap brasileiro nesta temporada. Em “Outra Realidade”, ela expande seu próprio universo e convida outras personagens para contar essa mesma narrativa: Cris SNJ, Iza Sabino e Nega Dizza.

À medida com que BUNMI vai chegando ao final, Stefanie propõe um sorriso no rosto do ouvinte, encerrando o repertório com “Puro Love” e “Plenamente”, que relata sua experiência pessoal de fé. É uma autobiografia sem final feliz – porque a história ainda não acabou –, mas uma história que, mesmo sem esconder suas dificuldades, narra também o prazer que a rapper encontra em fazer música há tantos anos.

(BUNMI em uma faixa: “Desconforto”)

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ARTISTA: Stefanie

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.