Resenhas

Steve Lacy – Apollo XXI

O debut de Steve Lacy revela aos seus ouvintes que, por trás de sua personalidade introspectiva, há um criador ávido que promete nos levar para uma viagem psicodélica singular

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Ano: 2019
Selo: 3qtr
# Faixas: 12
Estilos: Alt-R&B, Experimental
Duração: 43'
Nota: 3.5
Produção: Steve Lacy

Em um cenário musical que valoriza cada vez mais superproduções, o jovem norte-americano Steve Lacy parece andar na contramão. Para si, ele reserva o direito de manter-se introspectivo em suas próprias composições. Quem ouviu o primeiro registro solo do guitarrista do The Internet, o EP Steve Lacy’s Demo (2017) – gravado inteiramente em um celular – sabe, perfeitamente, disso. Mas, se por um lado o artista tem esse perfil, à princípio, mais fechado; suas referências fazem o caminho inverso. Em entrevista para o quadro What’s In My Bag, da loja de discos Amoeba Records, em Los Angeles, Steve mostra que seu repertório é muito mais plural do que se imagina ao ouvir o Funk e R&B sinuoso produzido pela banda da qual faz parte. Artistas como Mac DeMarco, Future e Beatles se misturam entre seu universo sonoro. Não à toa, Apollo XXI, seu álbum de estreia, é totalmente único e diversificado.

No disco, o que se ouve é uma série de faixas discrepantes que exploram uma vasta gama de timbres e experimentações: compassos fechados e estruturados são, frequentemente, abandonados, por exemplo. O efeito final, como sugere o nome do LP, é o de uma musicalidade psicodélica, cósmica… Vale lembrar, também, que Apollo, na mitologia grega, é o deus da juventude e da luz, do sol. A associação possível aqui é a de que Apollo XXI carrega consigo a efervescência quase adolescente de seu compositor.

Por isso, o disco, na verdade, só afirma o que já sabíamos a respeito de Steve Lacy: um menino destemido, com vontade de vida canalizada em potência verdadeiramente criativa. Assim, durante o LP, ficam alguns acenos para seu passado – há momentos mais “The Internet” e outros momentos mais “Steve Lacy’s Demo” –, mas, ainda assim, o resumo da ópera é um álbum imprevisível: a qualquer momento, tudo pode seguir um caminho radicalmente diferente. A experiência da audição de Apollo XXI não permite longos períodos na zona de conforto. A todo momento, nossa atenção é captada por uma virada rítmica, um novo groove que explode, um instrumento diferente que se sobressai. É aí que está o segredo da psicodelia deste disco: ao invés de investir na fórmula Tame Impala, o álbum propõe que essa sensação seja construída, justamente, nessas variações incessantes. O que é muito mais complexo do que qualquer “receita de bolo”.

Para se ter uma noção, imagine: a faixa que abre o disco – “Only If” – parece ser o que se tiraria de um liquidificador depois de bater o Mac DeMarco com uma boa dose de Hip Hop. A guitarra nesta música, inclusive, assume uns timbres similares aos da cítara, deixando tudo ainda menos convencional. A curiosa “Like Me” é uma epopeia progressiva – tem quase 10 minutos –, mas é segmentada por momentos claramente distintos entre alguns de seus silêncios. “Basement Jack”, por sua vez, talvez seja uma das canções mais estruturadas do registo, o que não quer dizer que ela caia no básico: seu twist vem das oscilações tonais tipicamente ligadas a gravadores de fita.

Esse tipo de estratégia nostálgica é uma característica importante do disco, por sinal. “Lay Me Down” é outra faixa que lança mão desse artifício – poderia estar tocando na Antena 1 a qualquer momento, em repetição infinita e hipnótica. Já o lado Indie de Steve aflora em “Love 2 Fast”, uma balada romântica que remonta o OK GO, mas que conserva uma melodia chorosa sustentada por sua guitarra distorcida.

Apollo XXI nos faz pensar que se Steve nos revela essa persona introspectiva e quieta, é porque, dentro de sua cabeça, acontecem viagem interestelares com direito a explosões entre naves, exílios em planetas escondidos de outras galáxias e amores delicados flutuando à gravidade zero. No fim das contas, nós é que nos beneficiamos da “falta de concentração” do artista. Uma vez que, no LP, o fruto disso são músicas plurais, inteligentes e desafiadoras que nos levam para essa trip delirante do compositor, resta a nós ter a coragem para embarcar.

(Apollo XII em uma faixa: Like Me)

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ARTISTA: Steve Lacy
MARCADORES: Alt-R&B, Experimental

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.