Resenhas

Suede – Night Thoughts

Banda inglesa lança o melhor álbum de sua carreira

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Ano: 2016
Selo: Rhino
# Faixas: 12
Estilos: Rock Alternativo, British Rock, Art Rock
Duração: 47:45
Nota: 4.5
Produção: Ed Buller

Fazer resenhas de álbuns é algo bastante sério. Muitos jornalistas especializados se acham bons o suficiente para tratarem tal tipo de texto com desdém, alegando que o formato é esvaziado hoje em dia ou, pior ainda, que as bandas e artistas não têm mais tanta criatividade para obras com maior fôlego, preferindo lançar canções isoladas via Internet. O fato é que, para resenhar com precisão, é preciso ouvir muito, procurar entender o máximo e contextualizar a obra com precisão. Vejam o caso de Night Toughts, novo álbum do quinteto inglês Suede. Lançado duas semanas após aquele que seria o último trabalho de sua maior fonte de inspiração, Blackstar, de David Bowie, que, não por coincidência, foi resenhado também por este vosso amigo, este novo disco é o mais coeso, grandioso e bem amarrado trabalho da banda inglesa. Sim, depois de mais de 20 anos de carreira, com poucos e bons lançamentos, a banda de Brett Anderson chegou à sua obra máxima.

Da incandescência do início dos anos 1990, chegando na virada do milênio, pegando emprestado nuances da belo disco de retorno, Bloodsports, lançado em 2013, pasmem, logo após de The Next Day, trabalho anterior do mesmo Bowie, tudo está aqui, agora, na melhor forma. A receita de Suede sempre foi ambiciosa e passava, necessariamente, pela releitura da sonoridade Glam/Art Rock bowieana do início dos anos 1970, criativa, revolucionária e, acima de tudo, inédita. Era uma música teatral, de guitarras, com reflexões sobre o cotidiano, mas com tempo para esbórnias existenciais, farras angustiadas e a sensação de algo não estava no lugar certo, mas que a fruição da vida era o fator mais importante. Suede pegou essa ideia no início dos anos 1990, a revestiu de sincronia com seu próprio tempo, adicionou temas apropriados e perseguiu o objetivo de tornar-se tão fluente quando seu mestre maior. Pois bem, só agora chegou lá. Night Toughts tem tudo isso: conceito (a história central fala de alguém que está se afogando, lutando para não morrer ali, e as canções seriam os flashes de imagens que passam rapidamente nessa hora), tons cinematográficos (há um filme que acompanha as canções na edição especial do lançamento, dirigido por Roger Sargent), guitarras, efeitos, melancolia e uma voz digna de carregar tudo isso nas costas. Todos os elementos checados, vamos lá.

Há pequenas mesclas entre as canções do álbum, reforçando a ideia de um conceito norteador. When You Are Young, a abertura, soberba, dramática, com cordas e a voz de Brett na ponta da chuteira desemboca em Outsiders, canção mais muscular, lembrando demais Echo & The Bunnymen, com guitarras, baixo e bateria gerando um clima de tensão, endossado pelo registro vocal e certa impressão de que não há nada que se possa fazer quanto ao que aconteceu. No Tomorrow chega em seguida, exibindo timbres e oscilações guitarrísticas clássicas, com refrão afetado e cantado fininho, com contraste intencional. A emenda com Pale Snow, que chega logo em seguida, confere mais drama à cena, com cordas, teclados e guitarras lânguidas que se insinuam à medida que a melodia avança, com Brett Anderson preenchendo espaços restantes com voz desesperada e levemente afetada, como convém nesse caso. Sintetizadores leves como gelo seco chegam em tom espiritual no refrão da música, conferindo efeito belíssimo. I Don’t Know How To Reach You quebra o clima – no bom sentido – e desencadeia uma levada clássica de baixo, bateria e guitarra, lembrando bandas inglesas legais dos anos 1980, que também tinham pretensão de alcançar o mesmo patamar de algumas criações “bowieanas”.

Tightrope tem início diáfano, com sonoridades de teclados e guitarras conduzindo Brett por um passeio em algum caminho molhado pela chuva, com céu cinzento sobre a cena. A chegada do refrão desencadeia explosão controlada e uma beleza total. Learning To Be chega misturada no final, elevando a tensão e fazendo qualquer esperança de sol ou lua cheia parecer sem qualquer sentido. Like Kids é uma pequena jóia melódica, novamente com destaque para as seis cordas de Richard Oakes, cada vez mais senhor de si e capaz de encontrar meios discretos para seu instrumento brilhar mais e mais. Ele e o multinstrumentista Neil Codling são os compositores das melodias das faixas, com a exata noção de espaço e oportunidade para as letras de Brett. I Can’y Give What She Wants é uma delicada balada sob a neve noturna, com efeitos de ventos e chiados da natureza servindo como parede sonora para a voz entristecida desfilar. When You Were Young tem belo fraseado guitarrístico envolvido pelo arranjo – que contempla ruídos de vozes indistintas ao fundo, conferindo um tom de caos controlado – que traz cordas serpenteantes para o foco da melodia. Esta serve de introdução para a última faixa, The Fur & The Feathers, funcionando como um único épico final para o álbum, com todos os elementos juntos, como quem caminha para o precipício sabendo que não há nada a fazer para evitar.

Suede sempre foi uma boa banda de Rock, com tradições e influências bem interessantes e capaz de evistar acomodações e mesmice com doses de invenção e personalidade. Agora, tal modelo chegou ao ápice. Não hesitem em ouvir este álbum, coisa muito fina.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.