Resenhas

Sufjan Stevens – Greetings from Michigan: The Great Lake State

Músico dirige o olhar a seu estado de origem remanejando memórias à luz dos desafios do novo milênio e mistura sonhos fantasiosos e fantasmas reais

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Ano: 2003
Selo: Asthmatic Kitty
# Faixas: 15
Estilos: Folk, Indie Folk, Rock Alternativo
Duração: 66'
Produção: Sufjan Stevens

Em 2002, o documentarista Michael Moore deu ao mundo um retrato de um Estados Unidos violento, covarde e um tanto imbecilizado no premiado Tiros em Columbine. Algumas de suas cenas mais marcantes, como a da milícia de civis e o do banco que oferecia um rifle a quem abrisse uma nova conta, foram gravadas em Michigan. Outros momentos icônicos se passaram em Sarnia e Windsor, cidades canadenses a poucos metros do estado, separadas respectivamente pelos rios St. Clair e – veja só – Michigan, que serviram de cenário para comparações que só depreciaram ainda mais a ideia de vida nos EUA, principalmente em Detroit (a capital do estado) e região.

Pensar que Sufjan Stevens trabalhava em Greetings from Michigan: The Great Lake State durante o lançamento e repercussão do documentário reforça um dos sentimentos mais fortes ao longo do álbum: o olhar melancólico do adulto que revisita seu berço em um momento no qual o mundo inteiro enxerga o local negativamente. Em vez de uma resposta às críticas, o artista compilou pedaços de sua memória afetiva que, sem se desviar dos problemas do lugar, nos dão outra visão na vida à beira do “grande lago” do título.

A brincadeira de procurar fotos dos locais mencionados no disco – algo que quem é muito fã e/ou está resenhando a obra faria – revela uma coleção de paisagens pacatas (até mesmo sem graça) que só fazem sentido serem homenageadas por quem tem uma relação afetiva com elas. Ao narrar pequenas histórias passadas nesses cenários, Sufjan constrói um quadro de como o estado onde ele nasceu e cresceu é entendido por quem ele é hoje – ou melhor, em 2003, aos 28 anos, quando Michigan foi produzido.

Para construir sua mensagem, o cantor, compositor e produtor oscila entre dois climas distintos: canções intimistas seguidas por faixas grandiosas, quase megalomaníacas. A primeira categoria é a que inicia o álbum, com “Flint (For the Unemployed and Underpaid)”, e conquista pelos vocais sussurrados e poucos instrumentos. Já a outra é a que transporta o ouvinte para ambientes sonoros muito preenchidos, de grande orquestração, como o que encerra a obra em “Vito’s Ordination Song”. O que ambos têm em comum é, além de momentos arrebatadoramente belos – cada um a seu modo –, a presença de eu-líricos que não expressam os problemas daquela terra, nem seu amor por ela.

Entre algumas menções ao desemprego (como em “The Upper Peninsula”), desamparo político (“They Also Mourn Who Do Not Wear Black”) e outras dificuldades da classe operária, majoritária no estado (como a ausência paterna em “For the Widows in Paradise”), há uma dinâmica de desesperança que colide com uma energia otimista na relação entre os dois humores do disco. Mesmo sem propor soluções para as adversidades, o artista parece tentar animar seus conterrâneos com faixas que poderiam ser uma espécie de “novos hinos” para o estado, como “Oh Detroit, Lift Up Your Weary Head (Rebuild! Restore! Reconsider!)”. É como se ele enxergasse o que o filme de Michael Moore mostrou, mas se recusasse a se contentar com aquela realidade.

Não é uma questão bairrista, é algo muito mais humano que isso. Morando em Nova York por uma década, Sufjan viajou no tempo e no espaço para revisitar o local onde nasceu e já não era mais sua casa, fortemente influenciado por suas lembranças dos primeiros anos de vida. Como o glockenspiel e seu timbre referencialmente infantil nos lembra ao longo do disco, Greetings from Michigan é uma obra que se apresenta como um sonho fantasioso, principalmente frente a uma realidade que se assemelha a um pesadelo.

(Greetings from Michigan: The Great Lake State em uma faixa: “Say Yes! To M!chIgan!”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.