Resenhas

Sufjan Stevens – Illinois

Com arranjos grandiosos e diversificados, quinto disco injeta subjetividade e emoção em investigação histórica

 407 total views

Ano: 2005
Selo: Rough Trade/Secretly Canadian/Asthmatic Kitty
# Faixas: 22
Estilos: Indie, Baroque Pop
Duração: 73'
Produção: Sufjan Stevens

Na literatura, há uma categoria particular de romance no qual o escritor se depara com uma função para além da criação ficcional: o romance histórico. Nele, a fantasia e o aspecto poético da prosa dividem espaço com uma minuciosa pesquisa e a exatidão dos fatos históricos. Toda a magia da obra é espremida entre pilares concretos de realidades, em uma grande amálgama narrativa. É neste gênero literário que se instaura um grande mistério: o de saber até onde vai a ficção e onde começa história real – mistério cuja não-solução é o que, muitas vezes, sustenta grande parte da aura fantástica envolta nesses romances.

Dito isso, é difícil pensar em um gênero musical equivalente a esta categoria de romance. Mas, se há alguém que chegou muito próximo (se é que não conseguiu com maestria) produzir um homólogo em forma de disco, este alguém é Sufjan Stevens, e seu grande disco-romance histórico é Illinois (Illinoise).

Lançado em 2005, o quinto disco do compositor e produtor foi a segunda parte de um plano de lançar 50 discos (um para cada estado americano) que nunca se concretizou – anos depois, o próprio Sufjan admitiu o plano ser uma piada de marketing. Independentemente de suas pretensões, o estado de Illinois é a grande inspiração para este disco e isto está impresso em todas as letras das mais de 20 faixas. Para o processo de composição, Sufjan procurou conversar com amigos sobre suas diversas experiências dentro do estado, fossem elas histórias, viagens, lendas que ouviram ou impressões gerais.

Tudo aqui é construído a partir de múltiplas subjetividades, fato que torna cada canção tão única quanto o conjunto da obra. Entretanto, Illinois tem uma particularidade que o encaixa na categoria do disco romance-histórico: Sufjan não consultou apenas pessoas, mas gastou uma boa parte de seu processo de composição pesquisando documentos oficiais, registros de imigrantes e livros sobre a história do estado de Illinois para compor sua narrativa. Assim, o disco ganha um aspecto objetivo, porém dotado de sensibilidade e domínio narrativo.

O trabalho reúne diferentes fontes de informações para compor as faixas, porém, tudo isso passa pelo olhar minucioso Sufjan Stevens – ele é o maestro que conduz este grande musical e o historiador que expressa sua crítica sobre os fatos. A faixa “Casimir Pulaski Day”, por exemplo, intersecciona a experiência pessoal do compositor com um feriado estadual em homenagem a um personagem da Revolução Americana. “The Man of Metropolis Steals Our Hearts”, por sua vez, coloca Superman como protagonista, em uma cidade inspirada em Chicago, capital do estado (em uma das versões da capa do disco, há uma representação dele voando pela cidade). “The Seer’s Towers” une a grandiosidade do ponto turístico da capital a uma perspectiva de encontro com divindades e santos cristãos (a cristandade e espiritualidade é um ponto recorrente no disco).

A guerra do Falcão Negro, confronto armado entre militares norte-americanos e nativos, ganha espaço na grandiosa “The Black Hawk War…”. Os títulos das faixas já são pequenas histórias por si só – a canção mencionada anteriormente se chama, na verdade, “The Black Hawk War, or, How to Demolish an Entire Civilization and Still Feel Good About Yourself in the Morning, or, We Apologize for the Inconvenience but You’re Going to Have to Leave Now, or, ‘I Have Fought the Big Knives and Will Continue to Fight Them Until They Are Off Our Lands​!​”.

Até os eventos mais tenebrosos e trágicos podem ser uma fonte preciosa para canções, mesmo que, para isso, tenhamos que abrir mão do conforto. Talvez o grande impacto do disco venha na faixa “John Wayne Gacy, Jr.”. O homem que inspirou o título da canção foi um assassino em série nos anos 1970 que se vestia de palhaço para ter acesso a garotos jovens. Ele foi acusado de matar 33 dessas crianças e de ter abusado sexualmente de algumas delas. O horror dos fatos não é economizado na narrativa de Sufjan Stevens, e é difícil conter as lágrimas quando ele canta, igualmente assustado, “Eram apenas garotos, com seus carros, e empregos de verão/Oh, meu Deus!”. O soco final no estômago vem quando o compositor compara o assassino a ele mesmo, com seus respectivos segredos. Sufjan realmente não tem a pretensão de deixar as coisas mais mansas ou suaves para seus ouvintes.

Além de todo esse dilúvio emocional, Sufjan cria em Illinois uma de suas obras mais ambiciosas do ponto de vista musical e sonoro. A complexidade das narrativas e emoções envolvidas só poderia ser fielmente representada com um disco igualmente eclético em seus arranjos e, nesse aspecto, Sufjan vai muito além do que se poderia imaginar na época. O disco nos permite ver para além de um cantor e compositor de Folk frágil, impondo orquestrações épicas e flertes com a música eletrônica. Referências que pulam de Igor Stravinsky, Death Cab For Cutie e Steve Reich em questão de segundos, e ainda por cima, em uma mesma faixa. A ambição e extravagância dos arranjos chegaram a dar a Sufjan um título popular de Gershwin contemporâneo, principalmente pela afinidade que tem por acordes complexos e contratempos típicos de arranjos de Jazz clássico. Illinois é certamente um de seus trabalhos mais experimentais.

Assim, rótulo Indie pode ser insuficiente para descrever a pluralidade e diversidade sonora de Illinois. Mas a forma como o disco foi gravado mostra que, talvez, o termo não seja de todo inapropriado para descrevê-lo. Apesar dos arranjos e orquestrações grandiosas, Sufjan gravou tudo em um pequeno gravador de oito canais, levando por várias localizações e registrando os diferentes instrumentos. Além disso, todos os arranjos foram feitos por ele, totalmente em isolamento. A ideia era chegar com uma partitura finalizada apenas para ser reproduzida, mantendo um controle criativo criterioso de seus arranjos em prol da narrativa do disco. Assim, quando colocam Sufjan sob a categoria Indie, parece que ele se relaciona mais com o espírito “faça-você-mesmo” da coisa do que a sonoridade Lo-fi, amadora e estereotipada.

Illinois é um disco de muitas camadas, que pode ser apreciado de diferentes perspectivas e em diferentes níveis. Por meio de um olhar histórico, mas que assume fortes emoções, Sufjan trouxe ao mundo o que muitos consideram ser sua obra-prima (uma escolha difícil). Esta justaposição entre o real e o subjetivo é parte do sensível apelo que o disco faz ao ouvinte. De se entregar totalmente. Illinois é maravilha moderna, na qual a realidade se mostra tão incrível (e assombrosa) quanto a ficção.

(Illinois em uma faixa: “John Wayne Gacy, Jr”)

 408 total views

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.